domingo, setembro 26, 2004

O encontro de dois profissionais, por uma noite, na cidade dos anjos

Não há créditos iniciais em Collateral; a seqüência de abertura surpreende o espectador que ainda não havia visto Tom Cruise na pele do matador de aluguel Vincent. Cabelo cortado à escovinha e barba por fazer – ambos grisalhos –, vestido impecavelmente em um terno cinza que salienta a cor do cabelo e óculos escuros. Lá está ele, bem mais velho, no meio da multidão do saguão do aeroporto de Los Angeles, cidade que funciona mais do que um simples painel de fundo para o filme.
Nada saberemos sobre o personagem de Cruise até que ele entre no táxi de Max (Jamie Foxx). Max é o primeiro profissional do título desta resenha que se toma contato durante o filme. Ele é taxista noturno pelas ruas da cidade dos anjos há doze anos e é extremamente competente em sua função, a ponto de saber a cronometragem das possíveis rotas a serem tomadas – característica que serve de alicerce para um interessante diálogo com Annie (Jada Pinkett Smith), uma de suas passageiras. No entanto, Max não tem interesse em exercer a função para sempre: ele tem planos para o futuro, para os quais está acumulando capital. Ao deixar Annie em sua parada, Max fica tão absorto pela conversa que acabara de ter que quase perde um passageiro. Este, no caso, é Vincent, recém-chegado a downtown vindo do aeroporto. E é aqui que o filme começa realmente.
Vincent tem negócios a serem resolvidos em Los Angeles que irão tomar uma noite toda; se Max bancar seu chofer, além de fazê-lo chegar adiantado ao aeroporto para pegar seu vôo matutino, irá embolsar setecentos dólares – quantia considerável para uma noite de trabalho. Mas logo na primeira parada, enquanto Max come um lanche esperando seu singular passageiro resolver seus negócios, um corpo cai sobre o táxi. Logo em seguida surge Vincent, e o taxista acaba por somar dois e dois... Questionado se foi ele o assassino, o personagem de Cruise responde: “Não, eu atirei nele. As balas e a queda o mataram” (“No, I shot him. The bullets and the fall killed him”).
Neste ponto, uma outra surpresa vem à tona: o personagem de Cruise não aparenta ter um mínimo de caráter. Ou seja, Tom Cruise, o eterno herói, com seu olhar franzido, sorriso largo e carismático, exibindo os dentes alvos, está interpretando um... vilão. Não há como definir Vincent de outra maneira. O mais importante da fala em questão é a maneira de ser dita; não existe sinal algum de sarcasmo, é dito da maneira mais fria e direta possível. Isto é, não há sentimento em Vincent, falta-lhe alma. Trata-se de um personagem poderoso, pesado, muito bem delineado, que exige escolhas de detalhes extremamente cuidadosas – desde a cor do cabelo, os gestos, as roupas etc. foram arduamente analisadas pelo diretor Michael Mann – criador e produtor executivo da famosa série dos anos 80 Miami Vice –, pelo roteirista Stuart Beattie e pelo próprio Cruise. Vincent é frio e calculista e é o segundo profissional que esta resenha faz alusão.
O destino do taxista e do assassino está fatalmente selado; não é possível mais separá-los. A jornada noturna que ambos se jogaram não pode mais ser detida. Assim, Max irá levar Vincent aos outros quatro lugares que faltam a ele visitar para concluir seu serviço – por bem ou por mal. A grande jogada, portanto, é notar que ambos são profissionais e são muito competentes, mesmo que a área de trabalho de cada um seja tão diferente uma da outra. Mas as semelhanças entre os dois resume-se a isso: faça seu trabalho bem feito, não importa qual seja. O assassino de aluguel tem uma visão de mundo totalmente diferente da de Max, o qual irá percorrer um caminho de auto-conhecimento patrocinado pelo primeiro, muito seguro de si. E esta é a diferença gritante entre os dois.
Collateral pode ser definido como um filme de ação? Não acredito. Trata-se mais de um thriller que conta com excelentes cenas de ação, as quais têm sua razão de ser no contexto do filme e nunca por si só, como é comum em filmes de ação. Mas as melhores seqüências estão estruturadas sobre os diálogos que ocorrem no interior do táxi. Toda a correria e intensidade deste longa são fruto da interação entre Vincent e Max – anos-luz de distância do que já se viu sobre situações de seqüestro em outros filmes. Essa interação é o coração do filme.
No entanto, faz-se presente outro elemento fundamental: a cidade de Los Angeles. Uma cidade espalhada, impessoal, muito diferente de quando se filma em Nova York, por exemplo, uma cidade-personagem. Mas Mann busca este objetivo: mostrar L.A. quase como uma personagem. Ela serve mais do que um pano de fundo para a trama, dá o tom e a atmosfera corretos para cada cena, tanto que é difícil imaginar o filme ter sido rodado em outro local senão lá; nem mesmo em Nova York, algo que seria possível de se visualizar quando esse projeto ainda estava no roteiro. Inclusive cogitou-se em filmar na Big Apple – a decisão da mudança para a Costa Oeste ficou à cargo de Mann. Isso significa que a elevação de L.A. a essa estatura alcançada em Collateral se deve ao diretor.
Michael Mann utilizou-se de uma nova geração de câmeras digitais – capazes de captar imagens mais nítidas e coloridas em filmagens noturnas – para alcançar seu objetivo. Mas a percepção da cidade dos anjos como personagem vai além. Desde a maneira de enquadrar os ângulos – tomadas aéreas belíssimas, onde as luzes lá de baixo se refletem em helicópteros – até uma cena muito específica que, aparentemente, é difícil de ser interpretada e acaba por ser esquecida pela maioria do público. Trata-se da seqüência na qual Max tem o caminho de seu táxi atravessado por lobos. L.A. revela dessa maneira um outro lado seu, um lado mais distante da selva de concreto e mais próximo do selvagem, da natureza. Uma cena instigantemente simbólica.
Voltando a Cruise, deve-se dizer que ele realmente está excelente. Difícil dizer se é seu melhor papel – o jovem voluntário que se torna paraplégico após um acidente no Vietnã e se transforma em um rebelde ativista em Born on the Fourth of July (1989), de Oliver Stone, pelo qual o ator foi indicado ao Oscar, é um concorrente de peso. Mas um ponto é claro: Cruise consegue, com este assassino de aluguel, desvincular-se de seu estigma de herói. É claro que não totalmente, e talvez daqui a cinqüenta anos lembrarão dele como o astro de Top Gun (1986), de Tony Scott, assim como Sean Connery ficou simbolizado por James Bond. Mas, do mesmo modo que Connery obteve sucesso emergindo com personagens distintos, Cruise acerta o alvo com este filme. Suas tentativas de desvinculação começaram, na verdade, com Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles (1994) de Neil Jordan, no qual vive o vampiro Lestat, e depois, com Magnolia (1999), de Paul Thomas Anderson, mas nenhuma delas havia sido tão significativa como esta. Ele abre mão de seu sorriso característico e, quando este surge em seus lábios, está repleto de frieza, é um gesto como outro, tal qual puxar o gatilho. É a reinvenção de Cruise; Vincent é um novo matiz – agora cinzento – na paleta do ator.
O restante do elenco é excepcional, destacando-se Jamie Foxx, ex-comediante, que interpreta Ray Charles em sua biografia que irá logo chegar às telas. Foxx – que perdeu a chance de trabalhar com Cruise em Jerry Maguire (1996), de Cameron Crowe, pois perdeu o papel para Cuba Gooding, Jr. – surpreende e dá uma interpretação de peso como o taxista Max. Outra atuação interessante é a de Mark Ruffalo (como o policial Fanning), ator que promete bastante. Ruffalo já havia dado grandes amostras do seu talento no recente In the Cut (2004), de Jane Campion, estrelado por Meg Ryan.
É interessante notar alguns elementos característicos da filmografia de Mann que traz esse Collateral muito próximo do estilo de Heat (1995), estrelado por Robert De Niro e Al Pacino. Ambos são filmes policiais que se estruturam sobre seqüências originais e peculiares de ação, mas cujo cerne está centrado na interação entre dois personagens extremamente bem definidos; os bandidos são extremamente carismáticos e encantadores, frios e calculistas (apesar do personagem de De Niro distanciar-se em muito do de Cruise), além de se vestirem impecavelmente com tons de cinza, usarem barba (no caso de De Niro, cavanhaque) e pentearem o cabelo para trás; os policiais são obstinados e não descansam; as seqüências de abertura mostram o bandido caminhando sozinho em lugares públicos; ambos se passam em Los Angeles; Heat começa no metrô e termina no aeroporto, Collateral, vice-versa; há muitas seqüências à noite e, no caso do filme estrelado por Cruise, isso significa 95% das cenas. Collateral, entretanto, é sui generis, cria uma sensação específica única. É como se fosse um fragância; somente Collateral cheira dessa maneira.

Por último, também é curioso perceber que Mann se utilizou de várias músicas de outros filmes para compor a trilha deste, inclusive de um brasileiro. São elas: Steel Cello Lament, escrita e interpretada por Elliot Goldenthal (Heat); Exile, de Pieter Bourke e Lisa Gerrard (The Insider, 1999, também de Michael Mann); Moxica & His Horse, de Vangelis (1492: Conquest of Paradise, 1992, de Ridley Scott) e A Roda, de Antonio Pinto (Abril Despedaçado, 2001, de Walter Salles).

Collateral, EUA, 2004. Estrelando: Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo. Dirigido por: Michael Mann. No Brasil: Colateral.

segunda-feira, setembro 13, 2004

A parisiense paisagem jazzista dos anos 50

Existem certos tipos de filmes que não apresentam um roteiro original, uma performance excepcional dos atores ou uma direção prodigiosa e que, além de tudo isso, abusam de clichês. Paris Blues é um desses filmes. No entanto, nenhum desses motivos é o suficiente para deixar de assisti-lo.
Isso se deve ao fato de que há sucesso na recriação da atmosfera boêmia e jazzista dos anos 50 da capital francesa. A cena inicial do filme, com Paul Newman tocando trompete – acompanhado por Sidney Poitier e banda – em um clube com a platéia excitada (o diretor Martin Ritt faz questão de explicitar esse fato) já vale o ingresso.
Desde o início, portanto, sabe-se que a música é o elemento que tudo une neste filme e que, apesar de não estruturar-se completamente sobre seqüências musicais, trata-se de um musical. O próprio título original é o nome de uma música a qual o personagem de Newman, Ram Bowen, está compondo.
Quando traduzida para o português, deram o nome sugestivo de Paris Vive à Noite, alteração que muda drasticamente o enfoque do roteiro. É fato que a maior parte do filme se passa à noite, pois os personagens principais são músicos e, como eles próprios se definem, noctívagos. Mas são noctívagos devido à música.
Paris Blues é o nome da obsessão de Bowen, que vive, come e respira jazz. Obcecado pela própria carreira e disposto a ir até o final para descobrir a extensão de seu talento, Bowen relega todo o resto para um segundo plano. Eddie Cook é o parceiro de banda de Bowen interpretado por Poitier. Cook é talentoso, mas o motivo de viver em Paris não é outro senão devido ao preconceito racial que sofre em seu país natal, os Estados Unidos. A chegada de duas turistas americanas – uma delas interpretada pela esposa de Newman, Joanne Woodward –, porém, bagunça o mundo dos dois músicos. Eles se apaixonam, previsivelmente, e elas tentam levá-los de volta à América. O conflito entre o amor e a carreira profissional eleva-se à enésima potência para Bowen, mas para Cook o retornar se traduz em lembrar as humilhações pelas quais passou. Há, claramente, várias questões abordadas pelo diretor Martin Ritt. A mais visível delas é a obsessão de Bowen pela música, obsessão essa que o caracteriza como um sujeito irritado, mal-humorado (a seqüência na qual conhece a personagem de Woodward, Lillian Corning, é ilustrativa), mas extremamente esforçado. Bowen não tem tempo nem energia para se dedicar a nada tão sério quanto a música; todo o resto é supérfluo. Quando essa obsessão se afasta, mesmo que ligeiramente, nota-se a radical mudança em sua personalidade. Esse personagem, portanto, é o símbolo do filme: representa a música, mais especificamente o jazz. Ele é, também, o estereótipo do norte-americano radicado na Europa do pós-guerra.
A música permeia tudo nesse filme. A chegada das duas turistas americanas é simultânea à da turnê de Wild Man Moore, grande astro do jazz interpretado por ninguém menos que Louis Armstrong. Na verdade, Armstrong interpreta a si mesmo. Ele é, também, responsável pela mais divertida cena do filme, quando Moore e comitiva invade a apresentação de Bowman e sua banda na Marie’s cave, promovendo um show especial no velho e bom estilo de improvisação do jazz. É, sem dúvida, a melhor seqüência.
A segunda questão que emerge nesse filme é o preconceito racial, tema revisitado por Ritt em outros de seus filmes, notadamente Hombre (1967), também com Paul Newman. O fato de Eddie Cook não querer voltar para a América é radical; diz ele que está há cinco anos sem pisar nos Estados Unidos à personagem de Diahann Carroll – Connie Lampson –, quando param na Pont de L’archevéché na ida para o tomar de uma sopa de cebola. Somente um sentimento tão forte quanto o amor pode balançar esse pilar que se tornou a decisão de não retornar à terra natal.
É interessante notar que há uma outra questão inserida na discussão racial: o ativismo. Connie Lampson, no papel de ativista, critica Cook por ele ter abandonado o país. Para ela, ele deveria ter permanecido nos Estados Unidos lutando contra o preconceito. Cook, ao contrário, já considera Paris seu novo lar – mesmo que as crianças francesas o chamem de Monsieur Noir. Ele é apenas Eddie Cook, músico de jazz em Paris, e isso o conforta, fazendo-o esquecer do passado de humilhações.
Uma última observação se faz necessária ainda sobre a questão racial. É notável que Connie Lampson diga que a situação racial está melhorando nos Estados Unidos em um filme de 1961 ambientado nos anos 1950, ou seja, antes de Martin Luther King ganhar a proeminência que atingiu nos anos 1960. Que conclusão poderá se tirar disso?
Ritt aborda também a questão das drogas, outro ponto polêmico. O personagem de Roger Blin (não creditado no filme) – o guitarrista chamado de Gypsy por Bowman – é viciado em cocaína. A cena na qual Gypsy se droga é pesada para 1961, apesar de não ter idéia de qual foi o primeiro filme na história do cinema a mostrar algo similar. A interpretação de Blin é boa e triste, angustiante devido ao vício. E aqui há o cruzamento com a presença forte de Bowman, o qual tenta ajudá-lo a se desintoxicar. Não consegui concluir se tal preocupação se devia à falta que Gypsy faria à banda de Bowman ou ao real interesse pelo guitarrista como ser humano. Seguir o tamanho da obsessão de Ram Bowman levará à primeira opção. Mas há seqüências que deixam dúvidas.
Paris Blues se encaixa na linha de filmes com paisagens européias do pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Isso significa que os personagens são estereotipados, tanto os nativos quanto os norte-americanos. E se tratando de Paris – sem estatísticas, mas com certeza a cidade européia mais filmada pelo cinema americano – tal característica se intensifica. Paris é um símbolo do romantismo, de cidade cosmopolita e de turbilhão cultural desde a Belle Époque. Existe um preconceito sobre a visão que se tem da cidade. E os americanos usaram e abusaram dele e ainda o fazem. Portanto, ao assistir esse pouco conhecido Paris Blues, saiba que todos os clichês estarão lá: os passeios pelos pontos turísticos, o comer croissants, os beijos românticos e todo o alvoroço sentimental que a cidade nos faz lembrar. Quem conhece Paris, entretanto, sabe que a cidade não é somente isso, mas esconde facetas obscuras também.
De uma maneira ou de outra, porém, Martin Ritt obtém sucesso em recriar esse painel jazzista dos anos 50 de uma maneira que vale a pena testemunhar, mesmo que estereotipada. Não se pode deixar de falar do elenco excepcional – somente Paul Newman já valeria o filme. Além disso, a música (não original) é de Duke Ellington e Billy Strayhorn (este não creditado). Duke Ellington foi indicado ao Oscar de 1962 na categoria Best Music, Scoring of a Musical Picture, mas perdeu para West Side Story, o grande vencedor daquele ano.
Paris Blues, EUA, 1961. Estrelando: Paul Newman, Joanne Woodward, Sidney Poitier, Louis Armstrong. Dirigido por: Martin Ritt. No Brasil: Paris Vive à Noite.