quinta-feira, dezembro 30, 2004

Guia de resenhas 2004

Visando uma orientação aos leitores – visto que as resenhas são publicadas com títulos peculiares – segue abaixo uma lista discriminatória de todas os resenhas publicadas durante este ano de 2004, o qual se aproxima do fim. A lista – organizada em ordem alfabética de títulos originais – se compõe do nome do filme, seguido do título em português e do ano de produção; um traço o separa do título da respectiva resenha e de sua data de publicação. Acredito, assim, que a busca por um filme específico se torne mais fácil; há pretensão de publicar nova lista a cada seis meses. Boa pesquisa, boa leitura e até 2005, cujo nevado cume desafiante já desenha seu perfil no horizonte.
Paul Jones
Paris, Dezembro de 2004
About a Boy (Um Grande Garoto, 2002) – Somente um Garoto (20/10);
African Queen, The (Uma Aventura na África, 1951) – Um Clássico Eterno da Aventura (19/12);
L’Assassinat du Père Noël (O Assassinato do Papai-Noel, 1941) – O Assassinato do Papai-Noel ou a Trágica Perda da Inocência (17/10);
Collateral (Colateral, 2004) – O Encontro de Dois Profissionais, por uma Noite, na Cidade dos Anjos (26/09);
Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, 2004) – Quando as Memórias vão para a Lixeira (10/10);
Get Shorty (O Nome do Jogo, 1995) – A Malandragem Americana Impressa em uma Pulp Fiction Cinematográfica (12/12);
Girl With a Pearl Earring (Moça com Brinco de Pérola, 2003) – Por Onde se Esconde e se Revela a Sensualidade (31/10);
Gunfighter, The (O Matador, 1950) – Redenção no Oeste (03/10);
Hombre (idem, 1967) – O Dilema de Hombre (05/12);
Monster (Monster – Desejo Assassino, 2004) – Uma Odisséia Corporal: de Jake La Motta à Aileen Wuornos (Diálogos #1) (28/11);
Once Were Warriors (O Amor e a Fúria, 1994) – Explícita Violência e Implícita Covardia: Onde se Debate o Panorama Moderno dos Maoris (21/11);
Paris Blues (Paris Vive à Noite, 1961) – A Parisiense Paisagem Jazzista dos Anos 50 (13/09);
Play Misty for Me (Perversa Paixão, 1971) – A Estréia Primorosa de Eastwood na Direção (14/11);
Raging Bull (Touro Indomável, 1980) – Uma Odisséia Corporal: de Jake La Motta à Aileen Wuornos (Diálogos #1) (28/11);
Ronin (idem, 1998) – A Queda do Muro (07/11);
Sky Captain and the World of Tomorrow (Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, 2004) – Um Rebuscado e Delicioso Sanduíche de Clichês de Caráter Rétro-futurista (26/12);
Some Like It Hot (Quanto Mais Quente Melhor, 1959) – A Sublime Comédia (24/10);
Woman in Red, The (A Dama de Vermelho, 1984) – A Magnética Atração da Mulher de Vermelho (03/11).

domingo, dezembro 26, 2004

Um rebuscado e delicioso sanduíche de clichés de caráter rétro-futurista

Vivemos tempos de releituras e de resgate de gêneros esquecidos. A mediocridade presente ribomba pelos céus da mídia: não há mais idéias originais. Singrando a onda ecológica, nada resta senão reciclar. Fazem-se presentes os musicais e os grandes épicos; só faltam os westerns.

Este Sky Captain and the World of Tomorrow se encaixa, particularmente, em um nicho peculiar: o saudosismo em relação às épocas passadas. Assim como a comédia Down With Love (2003) faz uma paródia dos conturbados e revolucionários anos 1960, este filme traz à tona novamente a característica década de 1930. Ambos, porém, se apóiam por completo sobre o visual e o comportamento, mas de maneira afetadamente estereotipada, isto é, através da visão contemporânea que se tem sobre tais décadas, jogando fora todo o realismo que se poderia abordar.

De fato, o realismo não é a intenção neste filme de Kerry Conran; se fosse, não veríamos robôs gigantes – inspirados no cartoon Mechanical Monsters, de 1941, de Max Fleischer – devastando a cidade de Nova York e, logo depois, sendo combatidos por Joe “Sky Captain” Sullivan (Jude Law) em sua aeronave P-40 modificada enquanto a impetuosa jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) se aventura nas ruas para conseguir um furo.

Com apenas este fragmento do filme se pode vislumbrar todo o panorama no qual ele se encaixa. Visualmente rebuscado, filmado em preto-e-branco e totalmente feito em computador (exceto, é claro, pelos atores e por alguns poucos objetos imprescindíveis para interação), deve-se concordar que é impressionante. A qualidade técnica é impecável e coloca no pedestal a antiga essência do cinema espetáculo de maneira inteligente e interessante, capturando o espectador.

A concepção estética apresenta uma forte influência dos comic books e de filmes clássicos de ficção científica e aventura. Dessa forma, não é difícil notar a incrível semelhança entre a Nova York de Sky Captain e a Gotham City de Batman – quer seja a retratada nos quadrinhos como aquela concebida por Tim Burton no longa-metragem homônimo de 1989. Também é facilmente notável a inspiração para os porta-aviões voadores britânicos: os quadrinhos do herói caolho da Segunda Guerra Mundial, Nick Fury. Inúmeras são as influências, transitando de King Kong (1933) a THX 1138 (1971), passando por The War of the Worlds (1953).

Com o amálgama dessas influências, Conran lança mão do que se passou a chamar estilo rétro-futurista. O dicionário faz referência ao termo rétro ao que se diz de uma moda, de um estilo inspirado em um passado recente, especialmente ao período da década de 1920 a 1960[1]; no caso, a década de 1930. Assim, o cenário de época dá margem para uma invasão de máquinas que claramente não fazem parte dele; ao passo que o design das máquinas não deixa de ter influência do estilo da época. O rétro-futurismo é uma liberdade poética cinematográfica amplamente influenciada pelo universo dos comic books.

O rétro-futurismo caracteriza o visual rebuscado

A história em si, porém, deixa de ser o principal para dar espaço para a inovação técnica atuar. Isso porque o roteiro é um sanduíche de clichés. Tem-se a jornalista impetuosa que faz o impossível por uma boa matéria, o não menos impetuoso herói que salvará a tudo e a todos e o misterioso vilão que investe em terrível plano para conquistar o mundo. Sempre lembrando das influências (que dizem quase tudo a respeito deste filme), fica óbvio a semelhança com a estrutura das histórias do Superman: a egocêntrica e obsessiva repórter Lois Lane, o super-herói e a ameaça vilanesca qualquer – ainda mais se se reparar que o herói voa em ambos os casos. É a fórmula usual estruturada sobre o já gasto maniqueísmo, isto é, tudo está impresso em padrões de preto e branco, não havendo espaço para questionamentos sobre o caráter dos personagens. Eles estão a anos-luz de serem humanos: são, na verdade, modelos idealizados em moldes humanos.

A dinâmica de tal estrutura só funciona devido a dois motivos: os atores são bons e a história, por mais gasta que seja, é bem contada. Através deste último vem à tona a abordagem sui generis que o filme faz de seu próprio universo.

De fato, ocorre a gênese de um mundo próprio – o mundo de amanhã, o desejo ansioso do salto tecnológico que estava por vir a cada segundo e que se concretizou de forma dramática e horrível na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com o desenvolvimento de armas que poderiam trazer o juízo final à realidade. Na verdade, apesar do roteiro ser estabelecido em uma Nova York aparentemente real, há distorções cronológicas e geográficas em relação às referências. Por exemplo, as citações a The Wizard of Oz (1939) – a música tema do filme é, inclusive, Somewhere Over the Rainbow – e a Wuthering Heights (1939) são explícitas e localizariam temporalmente o filme em 1939; no final deste longa, entretanto, é dito claramente que se está em 1938. Sem citar que não há quaisquer indícios históricos, tais como a Grande Depressão advinda com a quebra da bolsa em 1929 e os preparativos germânicos para a guerra[2] – apesar de ser explícita a referência à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A inspiração essencial para o filme, todavia, repousa sobre a Exposição Mundial de Nova York, que ocorreu entre 1939 e 1940 e que apóia a posição do filme se passar em 1939. Tal exposição (que custou cerca de 155 milhões de dólares) tomou lugar no Flushing Meadows-Corona Park, na época um pântano que funcionava como aterro de lixo. Devidamente drenado e adaptado para servir de localidade para o evento, sobre ele ergueu-se a feira, cujo tema é, justamente, “o mundo de amanhã”. A própria reforma do local representa o progresso e o desenvolvimento, a ampliação da civilização. Como símbolo, foram construídas duas estruturas denominadas Trylon and Perisphere – um obelisco triangular disposto ao lado de uma enorme esfera. No interior da esfera construiu-se um grande modelo de uma cidade do futuro. No filme, a referência a esse símbolo é explicitamente visual, quando os protagonistas atingem o cume das altas montanhas nevadas do Tibet.

Jolie, Law e Paltrow: o elenco confere dinamismo

Como já disse, o desenvolvimento da história está em segundo plano para que o holofote esteja sobre a inovação técnica; além disso, o visual disfarça o mesmismo do qual as cenas seriam reféns. Para que isso fosse possível, realizou-se uma específica combinação do software Adobe After Effects Plug-ins aplicado para aperfeiçoar o visual ímpar do filme; nenhuma nova tecnologia foi desenvolvida, como se pensa. Devido à essa técnica, foi possível filmar em apenas 26 dias; locações comuns elevariam esse tempo para quase um ano e ainda, provavelmente, se cairia para uma ortodoxia visual que enterraria o filme.

Tal contexto remete à 1977, ano de lançamento do já clássico Star Wars, de George Lucas. Neste filme de ficção científica, o grande trunfo era a novidade tecnológica – visto que, neste caso, foi desenvolvida pioneiramente. A concepção do roteiro, por Lucas, consistiu na justaposição de cenas já consagradas: a princesa em perigo, o jovem herói que deve encontrar seu caminho e, obviamente, o vilão. Em seguida, ele aglutinou tais cenas através de gêneros imponentes: o western exposto nas roupas do mercenário Han Solo (Harrison Ford), os filmes orientais que retratavam as artes marciais e as lutas de espada simbolizados no Mestre Jedi Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness) e os filmes de guerra refletidos na concepção dos Rebeldes e nos tiroteios intergalácticos. Do mesmo modo, mas com outras referências, fez Conran neste Sky Captain, mas com menos apelo e dramaticidade: não há ambição aqui para uma saga. Menos ainda do que Lucas, porém, houve aqui interação genuína entre tais elementos. A aglutinação apenas serve para que os elementos funcionem como um conjunto, para que não se desgrudem, mas a interação que seria possível entre eles não é nem sequer perseguida. Na verdade, não há espaço para isso e nem se deseja que haja.

A inovação técnica, entretanto, levou às telas um acontecimento curioso e interessante: mesmo estando morto desde 1989, o ator Laurence Olivier, o “homem que recitava Shakespeare dormindo”, faz uma ponta. Isso foi possível através da manipulação de imagens em arquivo do ator, o que faz nascer uma instigante questão: qual o espaço para esse tipo de atuação? Não se trata, realmente, de uma atuação. Ora, a interpretação de um ator não pode ser reproduzida – mais uma vez – se justapondo expressões arquivadas. Cada expressão é única e, mesmo que o ator a reproduza, nunca será exatamente igual à primeira. Assim, é interessante a presença de Olivier no filme, mas não pode, indubitavelmente, se transformar em um hábito ou, pior, em uma regra. Por enquanto foi uma homenagem, amanhã não se sabe.

O cinema espetáculo, portanto, está aqui mais vivo que nunca e acaba por ser positivo. Neste caso, pode ser a justificativa para um filme, mas não um guia para o cinema em geral, como Hollywood costuma fazer. Pois desta maneira toda a originalidade fica enjaulada – a mesma originalidade que fez nascer este Sky Captain.

A formatação do cinema em espetáculo, todavia, lhe dá um aspecto romântico e, portanto, precisa da romantização para se estruturar. Entra-se, assim, na análise da romantização das épocas passadas, especialmente do entre guerras. Faz-se notável a visão romântica que se construiu do entre guerras, mesmo sabendo-se o quão terrível tal período foi para o mundo e mais ainda quando ele acabou em 1939. Talvez essa atmosfera romântica tenha nascido com o maior clássico romântico, Casablanca (1942), filmado ainda durante a guerra.

Dessa forma, Sky Captain não chega a ser uma releitura das décadas de 1930 e 1940, pois se assim fosse, teria que apresentar algo de novo em seu caleidoscópio de gêneros; trata-se muito mais de uma homenagem. Como dizia no começo desta resenha, nestes tempos medíocres, este filme se assemelha mais a um fast food: devora-o rapidamente, aprecia-o enquanto o faz e, uma hora depois, esqueça-o que o ingeriu. Afinal, trata-se apenas de um rebuscado e delicioso sanduíche de clichés. De caráter rétro-futurista, é verdade.

Sky Captain and the World of Tomorrow, EUA, 2004. Estrelando: Jude Law, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Giovanni Ribisi, Laurence Olivier. Dirigido por: Kerry Conran. No Brasil: Capitão Sky e o Mundo do Amanhã.

[1] Le Larousse de poche 2004 – Dictionnaire de la langue française et de la culture essentielle. Paris, Larousse, 2004, p. 708. A referência original é: “Se dit d’une mode, d’un style s’inspirant d’un passé récent (en particulier des années 1920 à 1960)”.

[2] Durante a exposição das manchetes dos jornais de todo o planeta, pode-se ver o símbolo da Águia de Ferro, uma referência ao regime nazista estar no poder na Alemanha. Indicações dos preparativos para a guerra – facilmente visualizados em qualquer livro de História sobre o tema – porém, estão totalmente ausentes.

domingo, dezembro 19, 2004

Um clássico eterno da aventura

O que define um clássico? Está aí uma questão difícil de se responder. Pode-se, entretanto, lançar mão de um agradável subterfúgio. Este não é outro senão deparar-se frente a frente com um clássico. Assistindo The African Queen, a definição parece se apresentar por si mesma. Um clássico tem a capacidade de causar um impacto cultural que perdure por gerações e mesmo séculos; tem também a capacidade de simbolizar – de maneira peremptória – uma época específica; e por esses motivos um clássico serve de padrão, de modelo. The African Queen reúne todas essas qualidades.

Aquele velho comentário saudosista “não se fazem filmes como antigamente” parece ganhar solidez quando se assiste a essa obra-prima do diretor John Huston. De fato, a atmosfera criada pelo filme é singular, apesar de familiar. Familiar porque foi copiada zilhões de vezes. As gerações subseqüentes à obra têm acesso mais fácil às influências dos clássicos do que a eles propriamente ditos, porque há um preconceito em relação aos primeiros. Assim, a massa absorve os reflexos distorcidos ao invés de visualizar a imagem por si mesma. Todavia se diga: não existem filmes velhos e novos, mas filmes bons e ruins.

African Queen é o nome do barco que serve de fuga para uma missionária e um aventureiro para fora do território africano controlado pelos alemães ao estourar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Trata-se de um filme de aventura apoiado por romance e drama, nada de novo, exceto por um detalhe: foi filmado em 1951. A idéia geral do roteiro é bastante simples, mas se torna complexa quando transportada para as telas. Afinal, não é possível manter a audiência atenta por 105 minutos apenas com tiros, crocodilos e corredeiras.

Aí repousa a genialidade deste longa. Hoje, 53 anos depois da produção, ele continua sendo emocionante. É claro que se tornou ingênuo, pois já disse: a fórmula foi repetida à exaustão. Mas é gracioso como nenhuma cópia poderia ser. Desenrola-se de uma maneira natural como já não é mais possível se ver. E mais uma vez prova ser um clássico, pois é símbolo de uma era que não existe mais.

O sucesso deste filme é responsabilidade de uma dupla de atores também clássicos: Humphrey Bogart e Katharine Hepburn.

Bogart interpreta Charlie Allnut, aventureiro rústico e grosseiro que está em seu habitat navegando pela África seu barco estropiado – o African Queen do título. Relaxa fumando charutos e enchendo a cara com gim. Veste roupas velhas e rasgadas, a barba espessa está sempre por fazer e aparenta desleixo.

Allnut contrasta vivamente com a personagem de Hepburn, Rose Sayer, desde o início do filme. Em uma das primeiras cenas, ele é convidado para jantar na casa que serve de base para a missão da Igreja Metodista da qual Sayer é voluntária. Trajando as mesmas roupas e exibindo o mesmo aspecto, Allnut se vê preso às regras das boas maneiras, mas seu estômago roncando não parece compreender a situação.

Os dois protagonistas se chocam dessa maneira, e o caminho para o desenvolvimento do roteiro se dá nesse sentido. O filme, portanto, está totalmente – sem sombra de dúvida – estruturado sobre os dois. Essa dependência é intensificada por outro detalhe: praticamente o longa todo se passa a bordo do African Queen. Pode-se dizer que este filme é, na verdade, um só diálogo entre Bogart e Hepburn. Todo o painel de fundo é pretexto para os dois personagens se encontrarem, se chocarem e se modificarem.

A personagem de Hepburn tem como característica marcante o incansável otimismo, o qual contagia Allnut e o faz rever seus conceitos. Os dois, obviamente, se apaixonam e ela é o porto no qual Allnut deseja aportar e nunca mais partir; ela quebra as regras de seu mundo. Essa maneira romântica e idealizada de se contar histórias não existe mais quando se trata de personagens adultos. Ela é fruto de uma visão ingênua e perfeita da realidade que hoje não se pode – e infelizmente, não se quer – mais conceber.

Analisando The African Queen deste ponto de vista pode-se vislumbrar a genialidade do diretor John Huston – ele próprio um grande aventureiro. Ou seja, com poucos – mas excelentes – ingredientes ele consegue criar uma obra-prima, um clássico da aventura e do cinema.

Além de Bogart e Hepburn, Huston tinha outras cartas na manga. The African Queen é a adaptação da novela homônima do escritor C. S. Forester pelas mãos do famoso crítico de cinema James Agee (premiado com o Pulitzer por outro trabalho em 1958) e pelo próprio Huston. A dupla foi indicada ao Oscar pela qualidade do roteiro. Bogart ganhou o único Oscar de sua carreira por esse filme e Hepburn (a recordista de indicações até Meryl Streep quebrar sua marca com Adaptation, de 2002) foi indicada pela quinta vez.

Como todo bom clássico, envolve lendas e histórias. Uma delas diz que para mostrar sua reprovação diante da enorme quantidade de álcool ingerida por Huston e Bogart durante as filmagens exaustivas na África (Congo e Uganda), Hepburn só bebeu água. Resultado: teve uma terrível desinteria.

Outro fato que ajudou a compor a lenda das filmagens deste filme foi o livro White Hunter Black Heart, de Peter Viertel, também roteirista do longa, mas não creditado. Ele narra todas as intempéries encontradas por Huston nas locações, tornando-se uma aventura à parte. Esse livro foi transformado em roteiro pelo próprio Viertel e filmado em 1990 por Clint Eastwood, que vive Huston nas telas.

The African Queen, EUA, 1951. Estrelando: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn. Dirigido por: John Huston. No Brasil: Uma Aventura na África.

domingo, dezembro 12, 2004

A malandragem americana impressa em uma pulp fiction cinematográfica

Quentin Tarantino, na seqüência de abertura de seu célebre Pulp Fiction (1994), define o substantivo pulp de duas maneiras. Na primeira delas, em seu sentido mais ordinário: “Uma mole, úmida e disforme massa de alguma substância”. Na segunda maneira, no sentido que adquiriu culturalmente: “Um livro contendo assunto lúgubre, e caracteristicamente impresso em papel grosseiro e imperfeito”.[1] Na expressão pulp fiction, entretanto, o termo adquire função de adjetivo, ao caracterizar um tipo de ficção específica, dessas que se vende em banca de jornal e que apresentam qualidade duvidosa.
Get Shorty é uma pulp fiction cinematográfica – não foi à toa que a primeira opção do estúdio para dirigir o filme foi o próprio Tarantino. Explica-se a expressão. Trata-se, assim como o filme de Tarantino – o qual foi um marco, uma revolução na linguagem do cinema – da transposição desse tipo barato de literatura para a sétima arte. Há uma série de personagens estereotipados que beiram o cômico e os quais se envolvem em várias linhas da narrativa, criando um amplo painel emaranhado. Em Pulp Fiction a comicidade divide espaço com uma violência sem freios, ao passo que neste filme de Barry Sonnenfeld isso não ocorre. (Este texto não é uma comparação entre os dois filmes, por isso deixa-se o primeiro de lado.)
Lida-se, assim, com uma comédia – mas uma comédia assinada por Elmore Leonard. Na prática, é relativamente difícil chegar à conclusão de que se trata de uma comédia. Leonard – o escritor que redige seu texto à mão e depois o datilografa – é velho conhecido da adaptação de livros para o cinema. O western politicamente correto Hombre (1967), de Martin Ritt, é adaptação de uma de suas novelas.[2] De fato, a história bem humorada, as guinadas inteligentes e os marcantes personagens carismáticos são a alma deste charmoso filme, que teve sua origem pelas mãos calejadas de Leonard, sua adaptação pela competência do roteirista Scott Frank e sua direção pelo cineasta Barry Sonnenfeld – que não havia feito nada de bom até então (a horrorosa versão cinematográfica sobre a família Addams é dele) e não fez mais nada depois (o cretino Men in Black, de 1997).
Sonnenfeld, de qualquer maneira, sabe que pulp fiction que se preze é carregada de palavrões. Por isso, como não poderia deixar de ser, a primeira fala do longa é: “It’s fuckin’ cold outside”. Ao mesmo tempo, depara-se com o agiota Chili Palmer – interpretado brilhantemente por John Travolta, o que lhe rendeu um Globo de Ouro na categoria Best Performance by an Actor in a Motion Picture – Comedy/Musical e a fama de especialista em viver gângsters, devido também ao inesquecível Vincent Vega. (Quando da escolha do ator para interpretar Palmer, Michael Keaton, Bruce Willis, Robert DeNiro, Al Pacino e Dustin Hoffman abriram mão do papel. A escolha inicial de Sonnenfeld era Danny DeVito, mas este não tinha a agenda livre. O próprio Travolta quase o recusou, mas seguiu o ótimo conselho de Quentin Tarantino...)
Palmer se veste sobriamente de preto e é um cinéfilo inveterado que usa no cotidiano exemplos envolvendo os atores James Cagney (1899-1986) e Al Pacino, entre outros; trabalha em Miami para Momo, chefe mafioso do Brooklyn, o que lhe dá certa folga entre outros gângsters. Quando Momo morre, porém, sua situação muda drasticamente. Sua relativa liberdade vai por água abaixo e ele é obrigado a seguir ordens do atrapalhado e esquentado Ray Bones (Dennis Farina, vencedor do American Comedy Award na categoria Funniest Supporting Actor in a Motion Picture). Quando voa para Las Vegas atrás de um devedor, Palmer faz um favor para um conhecido e vai atrás de Harry Zimm (Gene Hackman), que deve aos cassinos. Zimm é diretor de filmes B em Hollywood e, conversando com ele, Palmer vislumbra uma opção para deixar seu antigo ofício de agiota de lado e, simultaneamente, ingressar na produção de filmes com a idéia de um roteiro que tem em mente. Seus planos o porão em contato com a bela atriz Karen Flores (Rene Russo), o astro Martin Weir (Danny DeVito), o dono de serviços de limusine metido a gângster Bo Catlett (Delroy Lindo) e seu capanga Bear (James Gandolfini).
Esse amplo painel de personagens complica o roteiro simples. Como todos eles possuem uma certa significância na trama toda, sem deixar o foco se concentrar demais sobre Palmer, o espectador deve ser atento. Ainda mais em se tratando de personagens extremamente malandros. Todos eles andam sobre ovos, não possuem um terreno sólido para se movimentar, estão sempre dissimulando, enganando, trapaceando – resolvendo seus problemas da maneira mais fácil e segura possíveis para si mesmos, o que resulta em complicar as coisas para os outros. Os meandros são vitais para o filme, pois impede de se descobrir o que irá acontecer.
Entre as sinuosidades, está o flerte da máfia com o cinema, representado pela migração de Palmer de Miami para Los Angeles. É engraçado notar que Travolta, ator do filme, interpreta um agiota produtor de cinema para o filme dentro do próprio filme. E que DeVito, produtor real do filme, interpreta um ator que é contratado para viver o personagem de Travolta no filme que está sendo produzido dentro do enredo de Get Shorty. O título, por sinal, faz alusão às abreviações muito utilizadas em texto, como i.e. (isto é).
Ainda entre outras qualidades deste longa, vale à pena ver Gene Hackman em um raríssimo papel cômico e ouvir a excelente trilha sonora, que passa a atmosfera certa para cada cena, enriquecendo-a e não apenas caracterizando-a; esta trilha sonora é uma daquelas raras que se deve ter em casa. O elenco todo também é um espetáculo a parte, incluindo as rápidas pontas de Bette Midler e Harvey Keitel, não creditadas.
Obs.: O espectador atento notará que o personagem interpretado por Alex Rocco – o chefão Jimmy Cap – aparece no filme deitado sobre uma mesa de massagem, na exata posição que outro personagem seu, Moe Green, é assassinado em The Godfather (1972), de Francis Ford Coppola.
Get Shorty, EUA, 1995. Estrelando: John Travolta, Gene Hackman, Rene Russo, Danny DeVito, Dennis Farina, Delroy Lindo, James Gandolfini. Dirigido por: Barry Sonnenfeld. No Brasil: O Nome do Jogo.
[1] Music from the Motion Picture Pulp Fiction. 1994, MCA Records, Inc. O texto original compreende: “PULP (pulp) n. 1. A soft, moist, shapeless mass of matter. 2. A book containing lurid subject matter, and being characteristically printed on rough, unfinished paper”.
[2] Sobre este filme, ler: O dilema de Hombre (05/12/2004).

domingo, dezembro 05, 2004

O dilema de Hombre

Yes, ‘n how many times can a man turn his head Pretending he just doesn’t see? The answer, my friend, is blowin’ in the wind The answer is blowin’ in the wind Blowin’ in the Wind (Bob Dylan)
Quando se assiste um western, se espera – fatalmente – todos os clichês do gênero: longas cavalgadas, duelos, tiroteios, assassinatos, vastas e impressionantes paisagens. Mas o espectador que buscar somente o usual neste Hombre, ficará um tanto quanto decepcionado. Não que este filme não utilize os recursos comuns do gênero, mas sim porque esta não é sua característica marcante.
Hombre é como o personagem de Paul Newman – John Russell – é conhecido. Criado entre os índios, tem aversão à civilização; seu habitat são as terras selvagens. Mas o arisco Russell herda uma propriedade na cidade e é convencido pelo amigo Henry Mendez (Martin Balsam) a tomar posse do que é seu. Diante da possibilidade de trocar a propriedade por uma manada de cavalos, ele decide adentrar o mundo do homem branco.
O contato inicial de Russell com os brancos revela sua personalidade ácida. Seus comentários são diretos e ele usa poucas palavras. Com a língua afiada, retruca rapidamente, só encontrando rival à altura em Jessie (Diane Cilento, excelente no papel), a governanta que cuidava da propriedade que herdou e que agora não tem para onde ir; mas este não é problema de Russell.
O acaso acaba por juntar Russell e Jessie em uma viagem em diligência até outra cidade, onde ela pretende arranjar emprego. Mas junto com eles se forma um grupo de viajantes um tanto curioso. São eles: o Dr. Alex Favor (Fredric March) e esposa, muitos anos mais jovem do que ele; Billy Lee Blake (Peter Lazer) e Doris Blake (Margaret Blye), um jovem casal com problemas no relacionamento; o amigo Mendez e um sujeito grosseiro e mau caráter chamado Grimes (Richard Boone). Todos eles acabam por compor uma fatia da sociedade a qual Russell quer distância.
Hombre tem um caminho definido a seguir: o seu próprio, controlado por suas próprias regras. Acostumado à vida difícil, ele é, na verdade, um índio – e é tratado como um. Sofre o preconceito na pele porque, apesar de ser branco, vive como um indígena. Esse perfil o define como um personagem muito forte – tanto visual como psicologicamente. Seus movimentos são firmes, todavia rápidos. A força do personagem pode ser notada somente com sua presença discreta, por exemplo, sentado na estação antes da partida da diligência. Ele encara o homem branco como outro mundo, ao qual não pertence. Em determinado tempo durante o longa, há um diálogo interessante entre ele e Jessie que resume sua postura indiferente. Ele diz: “Os mortos estão mortos. Você deve enterrá-los”. E ela retruca, rápida no gatilho: “Tenho certeza de que é um bom conselho. O problema, Sr. Russell, é que eu acho que você sente o mesmo pelos vivos”. Os diálogos deste filme são muito bem escritos, deve-se dizer. São frases rápidas, diretas e que acertam o alvo em cheio – frases de efeito. Durante todo o longa o espectador é surpreendido por respostas que cortam o ar como um tapa e de retruques ainda mais incisivos. Foi baseado na novela de Elmore Leonard, esta transformada em roteiro por Irving Ravetch e Harriet Frank, Jr.
Mas Hombre é, na realidade, uma grande alegoria para a discussão do tema principal do filme: preconceito. Ou seja, essa história não foi feita exclusivamente para o gênero western, poderia ser contada em outro contexto com algumas poucas adaptações. Este filme de Ritt é, na verdade, metade western e metade road movie – aquele gênero no qual o desenvolvimento do enredo se dá necessariamente de acordo com uma longa viagem, gênero esse que ficou imortalizado em filmes como Easy Rider (1969), de Dennis Hoper, e Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott. Pode-se dizer que este Hombre tem um quê de road movie, é o ritmo da viagem que dá o tom do filme.
O tema do preconceito é reincidente na filmografia de Ritt, assim como a questão “até que ponto se envolver”? Foi abordado em Paris Blues (1961), mas com outra ótica[1]. Aqui, o preconceito se estabelece em relação aos índios e a questão do envolvimento é o dilema de John Russell. Isto é, até que ponto um homem pode estar em uma situação da qual não faz parte, mas na qual pode fazer a diferença, e não se envolver deliberadamente? É uma questão que acaba por fazer parte do universo do anti-herói. Assim, o caminho que Russell escolhe passa pelo caminho dos outros personagens do filme. Mas, decorrido certo tempo e certos acontecimentos imprevistos, será que ele pode seguir seu caminho e tomar tudo o que aconteceu como uma simples encruzilhada? Esse é o dilema de Hombre.
Hombre, EUA, 1967. Estrelando: Paul Newman, Fredric March, Richard Boones, Diane Cilento. Dirigido por: Martin Ritt. No Brasil: Hombre.
[1] Para mais detalhes ver A parisiense paisagem jazzista dos anos 50 (13/9/2004).