domingo, dezembro 12, 2004

A malandragem americana impressa em uma pulp fiction cinematográfica

Quentin Tarantino, na seqüência de abertura de seu célebre Pulp Fiction (1994), define o substantivo pulp de duas maneiras. Na primeira delas, em seu sentido mais ordinário: “Uma mole, úmida e disforme massa de alguma substância”. Na segunda maneira, no sentido que adquiriu culturalmente: “Um livro contendo assunto lúgubre, e caracteristicamente impresso em papel grosseiro e imperfeito”.[1] Na expressão pulp fiction, entretanto, o termo adquire função de adjetivo, ao caracterizar um tipo de ficção específica, dessas que se vende em banca de jornal e que apresentam qualidade duvidosa.
Get Shorty é uma pulp fiction cinematográfica – não foi à toa que a primeira opção do estúdio para dirigir o filme foi o próprio Tarantino. Explica-se a expressão. Trata-se, assim como o filme de Tarantino – o qual foi um marco, uma revolução na linguagem do cinema – da transposição desse tipo barato de literatura para a sétima arte. Há uma série de personagens estereotipados que beiram o cômico e os quais se envolvem em várias linhas da narrativa, criando um amplo painel emaranhado. Em Pulp Fiction a comicidade divide espaço com uma violência sem freios, ao passo que neste filme de Barry Sonnenfeld isso não ocorre. (Este texto não é uma comparação entre os dois filmes, por isso deixa-se o primeiro de lado.)
Lida-se, assim, com uma comédia – mas uma comédia assinada por Elmore Leonard. Na prática, é relativamente difícil chegar à conclusão de que se trata de uma comédia. Leonard – o escritor que redige seu texto à mão e depois o datilografa – é velho conhecido da adaptação de livros para o cinema. O western politicamente correto Hombre (1967), de Martin Ritt, é adaptação de uma de suas novelas.[2] De fato, a história bem humorada, as guinadas inteligentes e os marcantes personagens carismáticos são a alma deste charmoso filme, que teve sua origem pelas mãos calejadas de Leonard, sua adaptação pela competência do roteirista Scott Frank e sua direção pelo cineasta Barry Sonnenfeld – que não havia feito nada de bom até então (a horrorosa versão cinematográfica sobre a família Addams é dele) e não fez mais nada depois (o cretino Men in Black, de 1997).
Sonnenfeld, de qualquer maneira, sabe que pulp fiction que se preze é carregada de palavrões. Por isso, como não poderia deixar de ser, a primeira fala do longa é: “It’s fuckin’ cold outside”. Ao mesmo tempo, depara-se com o agiota Chili Palmer – interpretado brilhantemente por John Travolta, o que lhe rendeu um Globo de Ouro na categoria Best Performance by an Actor in a Motion Picture – Comedy/Musical e a fama de especialista em viver gângsters, devido também ao inesquecível Vincent Vega. (Quando da escolha do ator para interpretar Palmer, Michael Keaton, Bruce Willis, Robert DeNiro, Al Pacino e Dustin Hoffman abriram mão do papel. A escolha inicial de Sonnenfeld era Danny DeVito, mas este não tinha a agenda livre. O próprio Travolta quase o recusou, mas seguiu o ótimo conselho de Quentin Tarantino...)
Palmer se veste sobriamente de preto e é um cinéfilo inveterado que usa no cotidiano exemplos envolvendo os atores James Cagney (1899-1986) e Al Pacino, entre outros; trabalha em Miami para Momo, chefe mafioso do Brooklyn, o que lhe dá certa folga entre outros gângsters. Quando Momo morre, porém, sua situação muda drasticamente. Sua relativa liberdade vai por água abaixo e ele é obrigado a seguir ordens do atrapalhado e esquentado Ray Bones (Dennis Farina, vencedor do American Comedy Award na categoria Funniest Supporting Actor in a Motion Picture). Quando voa para Las Vegas atrás de um devedor, Palmer faz um favor para um conhecido e vai atrás de Harry Zimm (Gene Hackman), que deve aos cassinos. Zimm é diretor de filmes B em Hollywood e, conversando com ele, Palmer vislumbra uma opção para deixar seu antigo ofício de agiota de lado e, simultaneamente, ingressar na produção de filmes com a idéia de um roteiro que tem em mente. Seus planos o porão em contato com a bela atriz Karen Flores (Rene Russo), o astro Martin Weir (Danny DeVito), o dono de serviços de limusine metido a gângster Bo Catlett (Delroy Lindo) e seu capanga Bear (James Gandolfini).
Esse amplo painel de personagens complica o roteiro simples. Como todos eles possuem uma certa significância na trama toda, sem deixar o foco se concentrar demais sobre Palmer, o espectador deve ser atento. Ainda mais em se tratando de personagens extremamente malandros. Todos eles andam sobre ovos, não possuem um terreno sólido para se movimentar, estão sempre dissimulando, enganando, trapaceando – resolvendo seus problemas da maneira mais fácil e segura possíveis para si mesmos, o que resulta em complicar as coisas para os outros. Os meandros são vitais para o filme, pois impede de se descobrir o que irá acontecer.
Entre as sinuosidades, está o flerte da máfia com o cinema, representado pela migração de Palmer de Miami para Los Angeles. É engraçado notar que Travolta, ator do filme, interpreta um agiota produtor de cinema para o filme dentro do próprio filme. E que DeVito, produtor real do filme, interpreta um ator que é contratado para viver o personagem de Travolta no filme que está sendo produzido dentro do enredo de Get Shorty. O título, por sinal, faz alusão às abreviações muito utilizadas em texto, como i.e. (isto é).
Ainda entre outras qualidades deste longa, vale à pena ver Gene Hackman em um raríssimo papel cômico e ouvir a excelente trilha sonora, que passa a atmosfera certa para cada cena, enriquecendo-a e não apenas caracterizando-a; esta trilha sonora é uma daquelas raras que se deve ter em casa. O elenco todo também é um espetáculo a parte, incluindo as rápidas pontas de Bette Midler e Harvey Keitel, não creditadas.
Obs.: O espectador atento notará que o personagem interpretado por Alex Rocco – o chefão Jimmy Cap – aparece no filme deitado sobre uma mesa de massagem, na exata posição que outro personagem seu, Moe Green, é assassinado em The Godfather (1972), de Francis Ford Coppola.
Get Shorty, EUA, 1995. Estrelando: John Travolta, Gene Hackman, Rene Russo, Danny DeVito, Dennis Farina, Delroy Lindo, James Gandolfini. Dirigido por: Barry Sonnenfeld. No Brasil: O Nome do Jogo.
[1] Music from the Motion Picture Pulp Fiction. 1994, MCA Records, Inc. O texto original compreende: “PULP (pulp) n. 1. A soft, moist, shapeless mass of matter. 2. A book containing lurid subject matter, and being characteristically printed on rough, unfinished paper”.
[2] Sobre este filme, ler: O dilema de Hombre (05/12/2004).

2 comments:

Anonymous Anônimo said...

Well done!
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2 de setembro de 2006 02:04  
Anonymous Anônimo said...

Great work!
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2 de setembro de 2006 02:04  

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