domingo, dezembro 05, 2004

O dilema de Hombre

Yes, ‘n how many times can a man turn his head Pretending he just doesn’t see? The answer, my friend, is blowin’ in the wind The answer is blowin’ in the wind Blowin’ in the Wind (Bob Dylan)
Quando se assiste um western, se espera – fatalmente – todos os clichês do gênero: longas cavalgadas, duelos, tiroteios, assassinatos, vastas e impressionantes paisagens. Mas o espectador que buscar somente o usual neste Hombre, ficará um tanto quanto decepcionado. Não que este filme não utilize os recursos comuns do gênero, mas sim porque esta não é sua característica marcante.
Hombre é como o personagem de Paul Newman – John Russell – é conhecido. Criado entre os índios, tem aversão à civilização; seu habitat são as terras selvagens. Mas o arisco Russell herda uma propriedade na cidade e é convencido pelo amigo Henry Mendez (Martin Balsam) a tomar posse do que é seu. Diante da possibilidade de trocar a propriedade por uma manada de cavalos, ele decide adentrar o mundo do homem branco.
O contato inicial de Russell com os brancos revela sua personalidade ácida. Seus comentários são diretos e ele usa poucas palavras. Com a língua afiada, retruca rapidamente, só encontrando rival à altura em Jessie (Diane Cilento, excelente no papel), a governanta que cuidava da propriedade que herdou e que agora não tem para onde ir; mas este não é problema de Russell.
O acaso acaba por juntar Russell e Jessie em uma viagem em diligência até outra cidade, onde ela pretende arranjar emprego. Mas junto com eles se forma um grupo de viajantes um tanto curioso. São eles: o Dr. Alex Favor (Fredric March) e esposa, muitos anos mais jovem do que ele; Billy Lee Blake (Peter Lazer) e Doris Blake (Margaret Blye), um jovem casal com problemas no relacionamento; o amigo Mendez e um sujeito grosseiro e mau caráter chamado Grimes (Richard Boone). Todos eles acabam por compor uma fatia da sociedade a qual Russell quer distância.
Hombre tem um caminho definido a seguir: o seu próprio, controlado por suas próprias regras. Acostumado à vida difícil, ele é, na verdade, um índio – e é tratado como um. Sofre o preconceito na pele porque, apesar de ser branco, vive como um indígena. Esse perfil o define como um personagem muito forte – tanto visual como psicologicamente. Seus movimentos são firmes, todavia rápidos. A força do personagem pode ser notada somente com sua presença discreta, por exemplo, sentado na estação antes da partida da diligência. Ele encara o homem branco como outro mundo, ao qual não pertence. Em determinado tempo durante o longa, há um diálogo interessante entre ele e Jessie que resume sua postura indiferente. Ele diz: “Os mortos estão mortos. Você deve enterrá-los”. E ela retruca, rápida no gatilho: “Tenho certeza de que é um bom conselho. O problema, Sr. Russell, é que eu acho que você sente o mesmo pelos vivos”. Os diálogos deste filme são muito bem escritos, deve-se dizer. São frases rápidas, diretas e que acertam o alvo em cheio – frases de efeito. Durante todo o longa o espectador é surpreendido por respostas que cortam o ar como um tapa e de retruques ainda mais incisivos. Foi baseado na novela de Elmore Leonard, esta transformada em roteiro por Irving Ravetch e Harriet Frank, Jr.
Mas Hombre é, na realidade, uma grande alegoria para a discussão do tema principal do filme: preconceito. Ou seja, essa história não foi feita exclusivamente para o gênero western, poderia ser contada em outro contexto com algumas poucas adaptações. Este filme de Ritt é, na verdade, metade western e metade road movie – aquele gênero no qual o desenvolvimento do enredo se dá necessariamente de acordo com uma longa viagem, gênero esse que ficou imortalizado em filmes como Easy Rider (1969), de Dennis Hoper, e Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott. Pode-se dizer que este Hombre tem um quê de road movie, é o ritmo da viagem que dá o tom do filme.
O tema do preconceito é reincidente na filmografia de Ritt, assim como a questão “até que ponto se envolver”? Foi abordado em Paris Blues (1961), mas com outra ótica[1]. Aqui, o preconceito se estabelece em relação aos índios e a questão do envolvimento é o dilema de John Russell. Isto é, até que ponto um homem pode estar em uma situação da qual não faz parte, mas na qual pode fazer a diferença, e não se envolver deliberadamente? É uma questão que acaba por fazer parte do universo do anti-herói. Assim, o caminho que Russell escolhe passa pelo caminho dos outros personagens do filme. Mas, decorrido certo tempo e certos acontecimentos imprevistos, será que ele pode seguir seu caminho e tomar tudo o que aconteceu como uma simples encruzilhada? Esse é o dilema de Hombre.
Hombre, EUA, 1967. Estrelando: Paul Newman, Fredric March, Richard Boones, Diane Cilento. Dirigido por: Martin Ritt. No Brasil: Hombre.
[1] Para mais detalhes ver A parisiense paisagem jazzista dos anos 50 (13/9/2004).

2 comments:

Anonymous Anônimo said...

Fala Paul!!!! Agora vou postar normal, sem textos filosofais uahaua...apesar de ñ ler td q vc escreve por extrema preguiça, seu blog tah mto show....smp entro nele!!!!!!!
Hj eu li no site do terra q "O Iluminado" foi eleito o melhor filme de terror, acredita? Lembrei na hr de voce...ahaha.....queria assistir de novo, pq da outra vez eu dormi...acho q. de tanto medo...uahauah.bjosss te adorooo

6 de dezembro de 2004 17:23  
Anonymous Anônimo said...

Oooppss esqueci de deixar meu nome...eh a Mariiiiiii

6 de dezembro de 2004 17:24  

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