domingo, dezembro 19, 2004

Um clássico eterno da aventura

O que define um clássico? Está aí uma questão difícil de se responder. Pode-se, entretanto, lançar mão de um agradável subterfúgio. Este não é outro senão deparar-se frente a frente com um clássico. Assistindo The African Queen, a definição parece se apresentar por si mesma. Um clássico tem a capacidade de causar um impacto cultural que perdure por gerações e mesmo séculos; tem também a capacidade de simbolizar – de maneira peremptória – uma época específica; e por esses motivos um clássico serve de padrão, de modelo. The African Queen reúne todas essas qualidades.

Aquele velho comentário saudosista “não se fazem filmes como antigamente” parece ganhar solidez quando se assiste a essa obra-prima do diretor John Huston. De fato, a atmosfera criada pelo filme é singular, apesar de familiar. Familiar porque foi copiada zilhões de vezes. As gerações subseqüentes à obra têm acesso mais fácil às influências dos clássicos do que a eles propriamente ditos, porque há um preconceito em relação aos primeiros. Assim, a massa absorve os reflexos distorcidos ao invés de visualizar a imagem por si mesma. Todavia se diga: não existem filmes velhos e novos, mas filmes bons e ruins.

African Queen é o nome do barco que serve de fuga para uma missionária e um aventureiro para fora do território africano controlado pelos alemães ao estourar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Trata-se de um filme de aventura apoiado por romance e drama, nada de novo, exceto por um detalhe: foi filmado em 1951. A idéia geral do roteiro é bastante simples, mas se torna complexa quando transportada para as telas. Afinal, não é possível manter a audiência atenta por 105 minutos apenas com tiros, crocodilos e corredeiras.

Aí repousa a genialidade deste longa. Hoje, 53 anos depois da produção, ele continua sendo emocionante. É claro que se tornou ingênuo, pois já disse: a fórmula foi repetida à exaustão. Mas é gracioso como nenhuma cópia poderia ser. Desenrola-se de uma maneira natural como já não é mais possível se ver. E mais uma vez prova ser um clássico, pois é símbolo de uma era que não existe mais.

O sucesso deste filme é responsabilidade de uma dupla de atores também clássicos: Humphrey Bogart e Katharine Hepburn.

Bogart interpreta Charlie Allnut, aventureiro rústico e grosseiro que está em seu habitat navegando pela África seu barco estropiado – o African Queen do título. Relaxa fumando charutos e enchendo a cara com gim. Veste roupas velhas e rasgadas, a barba espessa está sempre por fazer e aparenta desleixo.

Allnut contrasta vivamente com a personagem de Hepburn, Rose Sayer, desde o início do filme. Em uma das primeiras cenas, ele é convidado para jantar na casa que serve de base para a missão da Igreja Metodista da qual Sayer é voluntária. Trajando as mesmas roupas e exibindo o mesmo aspecto, Allnut se vê preso às regras das boas maneiras, mas seu estômago roncando não parece compreender a situação.

Os dois protagonistas se chocam dessa maneira, e o caminho para o desenvolvimento do roteiro se dá nesse sentido. O filme, portanto, está totalmente – sem sombra de dúvida – estruturado sobre os dois. Essa dependência é intensificada por outro detalhe: praticamente o longa todo se passa a bordo do African Queen. Pode-se dizer que este filme é, na verdade, um só diálogo entre Bogart e Hepburn. Todo o painel de fundo é pretexto para os dois personagens se encontrarem, se chocarem e se modificarem.

A personagem de Hepburn tem como característica marcante o incansável otimismo, o qual contagia Allnut e o faz rever seus conceitos. Os dois, obviamente, se apaixonam e ela é o porto no qual Allnut deseja aportar e nunca mais partir; ela quebra as regras de seu mundo. Essa maneira romântica e idealizada de se contar histórias não existe mais quando se trata de personagens adultos. Ela é fruto de uma visão ingênua e perfeita da realidade que hoje não se pode – e infelizmente, não se quer – mais conceber.

Analisando The African Queen deste ponto de vista pode-se vislumbrar a genialidade do diretor John Huston – ele próprio um grande aventureiro. Ou seja, com poucos – mas excelentes – ingredientes ele consegue criar uma obra-prima, um clássico da aventura e do cinema.

Além de Bogart e Hepburn, Huston tinha outras cartas na manga. The African Queen é a adaptação da novela homônima do escritor C. S. Forester pelas mãos do famoso crítico de cinema James Agee (premiado com o Pulitzer por outro trabalho em 1958) e pelo próprio Huston. A dupla foi indicada ao Oscar pela qualidade do roteiro. Bogart ganhou o único Oscar de sua carreira por esse filme e Hepburn (a recordista de indicações até Meryl Streep quebrar sua marca com Adaptation, de 2002) foi indicada pela quinta vez.

Como todo bom clássico, envolve lendas e histórias. Uma delas diz que para mostrar sua reprovação diante da enorme quantidade de álcool ingerida por Huston e Bogart durante as filmagens exaustivas na África (Congo e Uganda), Hepburn só bebeu água. Resultado: teve uma terrível desinteria.

Outro fato que ajudou a compor a lenda das filmagens deste filme foi o livro White Hunter Black Heart, de Peter Viertel, também roteirista do longa, mas não creditado. Ele narra todas as intempéries encontradas por Huston nas locações, tornando-se uma aventura à parte. Esse livro foi transformado em roteiro pelo próprio Viertel e filmado em 1990 por Clint Eastwood, que vive Huston nas telas.

The African Queen, EUA, 1951. Estrelando: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn. Dirigido por: John Huston. No Brasil: Uma Aventura na África.