domingo, dezembro 26, 2004

Um rebuscado e delicioso sanduíche de clichés de caráter rétro-futurista

Vivemos tempos de releituras e de resgate de gêneros esquecidos. A mediocridade presente ribomba pelos céus da mídia: não há mais idéias originais. Singrando a onda ecológica, nada resta senão reciclar. Fazem-se presentes os musicais e os grandes épicos; só faltam os westerns.

Este Sky Captain and the World of Tomorrow se encaixa, particularmente, em um nicho peculiar: o saudosismo em relação às épocas passadas. Assim como a comédia Down With Love (2003) faz uma paródia dos conturbados e revolucionários anos 1960, este filme traz à tona novamente a característica década de 1930. Ambos, porém, se apóiam por completo sobre o visual e o comportamento, mas de maneira afetadamente estereotipada, isto é, através da visão contemporânea que se tem sobre tais décadas, jogando fora todo o realismo que se poderia abordar.

De fato, o realismo não é a intenção neste filme de Kerry Conran; se fosse, não veríamos robôs gigantes – inspirados no cartoon Mechanical Monsters, de 1941, de Max Fleischer – devastando a cidade de Nova York e, logo depois, sendo combatidos por Joe “Sky Captain” Sullivan (Jude Law) em sua aeronave P-40 modificada enquanto a impetuosa jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) se aventura nas ruas para conseguir um furo.

Com apenas este fragmento do filme se pode vislumbrar todo o panorama no qual ele se encaixa. Visualmente rebuscado, filmado em preto-e-branco e totalmente feito em computador (exceto, é claro, pelos atores e por alguns poucos objetos imprescindíveis para interação), deve-se concordar que é impressionante. A qualidade técnica é impecável e coloca no pedestal a antiga essência do cinema espetáculo de maneira inteligente e interessante, capturando o espectador.

A concepção estética apresenta uma forte influência dos comic books e de filmes clássicos de ficção científica e aventura. Dessa forma, não é difícil notar a incrível semelhança entre a Nova York de Sky Captain e a Gotham City de Batman – quer seja a retratada nos quadrinhos como aquela concebida por Tim Burton no longa-metragem homônimo de 1989. Também é facilmente notável a inspiração para os porta-aviões voadores britânicos: os quadrinhos do herói caolho da Segunda Guerra Mundial, Nick Fury. Inúmeras são as influências, transitando de King Kong (1933) a THX 1138 (1971), passando por The War of the Worlds (1953).

Com o amálgama dessas influências, Conran lança mão do que se passou a chamar estilo rétro-futurista. O dicionário faz referência ao termo rétro ao que se diz de uma moda, de um estilo inspirado em um passado recente, especialmente ao período da década de 1920 a 1960[1]; no caso, a década de 1930. Assim, o cenário de época dá margem para uma invasão de máquinas que claramente não fazem parte dele; ao passo que o design das máquinas não deixa de ter influência do estilo da época. O rétro-futurismo é uma liberdade poética cinematográfica amplamente influenciada pelo universo dos comic books.

O rétro-futurismo caracteriza o visual rebuscado

A história em si, porém, deixa de ser o principal para dar espaço para a inovação técnica atuar. Isso porque o roteiro é um sanduíche de clichés. Tem-se a jornalista impetuosa que faz o impossível por uma boa matéria, o não menos impetuoso herói que salvará a tudo e a todos e o misterioso vilão que investe em terrível plano para conquistar o mundo. Sempre lembrando das influências (que dizem quase tudo a respeito deste filme), fica óbvio a semelhança com a estrutura das histórias do Superman: a egocêntrica e obsessiva repórter Lois Lane, o super-herói e a ameaça vilanesca qualquer – ainda mais se se reparar que o herói voa em ambos os casos. É a fórmula usual estruturada sobre o já gasto maniqueísmo, isto é, tudo está impresso em padrões de preto e branco, não havendo espaço para questionamentos sobre o caráter dos personagens. Eles estão a anos-luz de serem humanos: são, na verdade, modelos idealizados em moldes humanos.

A dinâmica de tal estrutura só funciona devido a dois motivos: os atores são bons e a história, por mais gasta que seja, é bem contada. Através deste último vem à tona a abordagem sui generis que o filme faz de seu próprio universo.

De fato, ocorre a gênese de um mundo próprio – o mundo de amanhã, o desejo ansioso do salto tecnológico que estava por vir a cada segundo e que se concretizou de forma dramática e horrível na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com o desenvolvimento de armas que poderiam trazer o juízo final à realidade. Na verdade, apesar do roteiro ser estabelecido em uma Nova York aparentemente real, há distorções cronológicas e geográficas em relação às referências. Por exemplo, as citações a The Wizard of Oz (1939) – a música tema do filme é, inclusive, Somewhere Over the Rainbow – e a Wuthering Heights (1939) são explícitas e localizariam temporalmente o filme em 1939; no final deste longa, entretanto, é dito claramente que se está em 1938. Sem citar que não há quaisquer indícios históricos, tais como a Grande Depressão advinda com a quebra da bolsa em 1929 e os preparativos germânicos para a guerra[2] – apesar de ser explícita a referência à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A inspiração essencial para o filme, todavia, repousa sobre a Exposição Mundial de Nova York, que ocorreu entre 1939 e 1940 e que apóia a posição do filme se passar em 1939. Tal exposição (que custou cerca de 155 milhões de dólares) tomou lugar no Flushing Meadows-Corona Park, na época um pântano que funcionava como aterro de lixo. Devidamente drenado e adaptado para servir de localidade para o evento, sobre ele ergueu-se a feira, cujo tema é, justamente, “o mundo de amanhã”. A própria reforma do local representa o progresso e o desenvolvimento, a ampliação da civilização. Como símbolo, foram construídas duas estruturas denominadas Trylon and Perisphere – um obelisco triangular disposto ao lado de uma enorme esfera. No interior da esfera construiu-se um grande modelo de uma cidade do futuro. No filme, a referência a esse símbolo é explicitamente visual, quando os protagonistas atingem o cume das altas montanhas nevadas do Tibet.

Jolie, Law e Paltrow: o elenco confere dinamismo

Como já disse, o desenvolvimento da história está em segundo plano para que o holofote esteja sobre a inovação técnica; além disso, o visual disfarça o mesmismo do qual as cenas seriam reféns. Para que isso fosse possível, realizou-se uma específica combinação do software Adobe After Effects Plug-ins aplicado para aperfeiçoar o visual ímpar do filme; nenhuma nova tecnologia foi desenvolvida, como se pensa. Devido à essa técnica, foi possível filmar em apenas 26 dias; locações comuns elevariam esse tempo para quase um ano e ainda, provavelmente, se cairia para uma ortodoxia visual que enterraria o filme.

Tal contexto remete à 1977, ano de lançamento do já clássico Star Wars, de George Lucas. Neste filme de ficção científica, o grande trunfo era a novidade tecnológica – visto que, neste caso, foi desenvolvida pioneiramente. A concepção do roteiro, por Lucas, consistiu na justaposição de cenas já consagradas: a princesa em perigo, o jovem herói que deve encontrar seu caminho e, obviamente, o vilão. Em seguida, ele aglutinou tais cenas através de gêneros imponentes: o western exposto nas roupas do mercenário Han Solo (Harrison Ford), os filmes orientais que retratavam as artes marciais e as lutas de espada simbolizados no Mestre Jedi Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness) e os filmes de guerra refletidos na concepção dos Rebeldes e nos tiroteios intergalácticos. Do mesmo modo, mas com outras referências, fez Conran neste Sky Captain, mas com menos apelo e dramaticidade: não há ambição aqui para uma saga. Menos ainda do que Lucas, porém, houve aqui interação genuína entre tais elementos. A aglutinação apenas serve para que os elementos funcionem como um conjunto, para que não se desgrudem, mas a interação que seria possível entre eles não é nem sequer perseguida. Na verdade, não há espaço para isso e nem se deseja que haja.

A inovação técnica, entretanto, levou às telas um acontecimento curioso e interessante: mesmo estando morto desde 1989, o ator Laurence Olivier, o “homem que recitava Shakespeare dormindo”, faz uma ponta. Isso foi possível através da manipulação de imagens em arquivo do ator, o que faz nascer uma instigante questão: qual o espaço para esse tipo de atuação? Não se trata, realmente, de uma atuação. Ora, a interpretação de um ator não pode ser reproduzida – mais uma vez – se justapondo expressões arquivadas. Cada expressão é única e, mesmo que o ator a reproduza, nunca será exatamente igual à primeira. Assim, é interessante a presença de Olivier no filme, mas não pode, indubitavelmente, se transformar em um hábito ou, pior, em uma regra. Por enquanto foi uma homenagem, amanhã não se sabe.

O cinema espetáculo, portanto, está aqui mais vivo que nunca e acaba por ser positivo. Neste caso, pode ser a justificativa para um filme, mas não um guia para o cinema em geral, como Hollywood costuma fazer. Pois desta maneira toda a originalidade fica enjaulada – a mesma originalidade que fez nascer este Sky Captain.

A formatação do cinema em espetáculo, todavia, lhe dá um aspecto romântico e, portanto, precisa da romantização para se estruturar. Entra-se, assim, na análise da romantização das épocas passadas, especialmente do entre guerras. Faz-se notável a visão romântica que se construiu do entre guerras, mesmo sabendo-se o quão terrível tal período foi para o mundo e mais ainda quando ele acabou em 1939. Talvez essa atmosfera romântica tenha nascido com o maior clássico romântico, Casablanca (1942), filmado ainda durante a guerra.

Dessa forma, Sky Captain não chega a ser uma releitura das décadas de 1930 e 1940, pois se assim fosse, teria que apresentar algo de novo em seu caleidoscópio de gêneros; trata-se muito mais de uma homenagem. Como dizia no começo desta resenha, nestes tempos medíocres, este filme se assemelha mais a um fast food: devora-o rapidamente, aprecia-o enquanto o faz e, uma hora depois, esqueça-o que o ingeriu. Afinal, trata-se apenas de um rebuscado e delicioso sanduíche de clichés. De caráter rétro-futurista, é verdade.

Sky Captain and the World of Tomorrow, EUA, 2004. Estrelando: Jude Law, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Giovanni Ribisi, Laurence Olivier. Dirigido por: Kerry Conran. No Brasil: Capitão Sky e o Mundo do Amanhã.

[1] Le Larousse de poche 2004 – Dictionnaire de la langue française et de la culture essentielle. Paris, Larousse, 2004, p. 708. A referência original é: “Se dit d’une mode, d’un style s’inspirant d’un passé récent (en particulier des années 1920 à 1960)”.

[2] Durante a exposição das manchetes dos jornais de todo o planeta, pode-se ver o símbolo da Águia de Ferro, uma referência ao regime nazista estar no poder na Alemanha. Indicações dos preparativos para a guerra – facilmente visualizados em qualquer livro de História sobre o tema – porém, estão totalmente ausentes.