domingo, janeiro 09, 2005

A atmosfera inóspita de Hemingway

O cinema sempre foi um ávido receptor das produções literárias. Não é difícil imaginar a causa deste fato. Ao se lançar por linhas literárias, o leitor deixa momentaneamente sua rotina de lado e se aventura pela imaginação do escritor. Trata-se de uma maneira de superar a monotonia diária, vendo-se rodeado por novas atmosferas. Se o leitor for dos mais exigentes, daqueles que exigem um Dostoievski ou um Victor Hugo, tal aventura virá acompanhada das mais profundas questões sobre o universo humano e, conseqüentemente, sobre si mesmo. Assim, esse terreno é muito fértil para a dramaticidade que o cinema busca.

A grande questão sobre a migração de obras literárias para a grande tela é justamente a maneira pela qual isto é feito. A literatura possui uma carta na manga difícil de ser superada pelo cinema justamente por este demonstrar uma limitação inerente à sua essência. Isto é, ao ler um livro, o leitor absorve a narrativa e cria, por si só, uma realidade própria. Apesar de oriunda da mesma fonte, nunca a imaginação de um leitor é igual à outra; no máximo, semelhante. Mas fazer um filme é materializar uma realidade subjetiva. O diretor deve estabelecer apenas uma das inúmeras possibilidades para a cena. Com isso, traça um corte que limita a extensa amplitude literária. Pode-se dizer que empobrece as fronteiras da história. Por outro lado, cria a sua própria realidade.

O “x” da questão repousa, portanto, aqui. O processo de criação dessa realidade própria deve considerar a concepção de uma atmosfera sui generis, dotada de suas próprias características. Ou seja, a literatura deve ser o trampolim para um salto maior, através do qual irá se alcançar fronteiras ainda mais distantes. Em suma: o cinema deve contribuir para a aventura do leitor de modo a ampliar a experiência, e não ser apenas uma transposição das páginas para a tela.

As estatísticas demonstram, infelizmente, que este não é o caso, isto é, a superioridade literária se faz presente e as versões cinematográficas são, na maioria, exatamente isso: versões minimalistas de um amplo horizonte.

Em Ernest Hemingway’s The Killers, curiosamente, os dois fenômenos estão presentes: a versão minimalista e a extensão das fronteiras.

Com efeito, o filme de Robert Siodmak abre exatamente como no conto do escritor norte-americano: “The door of Henry’s lunch-room opened and two men came in. They sat down at the counter.

‘What’s yours?’ George asked them.

‘I don’t know,’ one of the men said. ‘What do you want to eat, Al?’

‘I don’t know,’ said Al. ‘I don’t know what I want to eat.’

Outside it was getting dark. The street-light came on outside the window. The two men at the counter read the menu. From the other end of the counter Nick Adams watched them. He had been talking to George when they came in.”[1]

É possível, com o conto nas mãos, acompanhar o desenvolvimento da cena tal qual um script – com rigidez eclesiástica aos diálogos. Pudera: o curto conto de Hemingway se estende por oito páginas apenas, o que corresponde à cerca de dez minutos de filme. Se Siodmak fosse fazer alterações dramáticas, somente a inspiração sobraria do texto.[2] Pois ao término dos dez minutos o conto de Hemingway fica para trás e tudo o que vem a seguir provém da imaginação de Anthony Veiller, Richard Brooks e John Huston (os dois últimos não creditados).

O fato é que tudo colabora para isso. Hemingway foi um dos escritores de língua inglesa mais importantes do século passado, já que foi responsável por uma revolução na escrita. Inúmeras vezes copiado, mas pouquíssimas vezes alcançado, o escritor, nascido em 1899 em Oak Park, subúrbio de Chicago, caracterizou sua literatura por um forte influência jornalística, dotando-a de narrativas ágeis e diretas e de longos diálogos incisivos. Um perfil único que se encaixava com sua vida repleta de aventuras, que o levou a ser desde correspondente e motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), grande fã de touradas e conseqüente assíduo freqüentador da fiesta em Pamplona a vencedor do Nobel de Literatura em 1954 por The Old Man and the Sea.

A atmosfera e os personagens das histórias de Hemingway hoje são clichés – anti-heróis durões caracterizados por perdas e incrível sofrimento que são lançados pelo escritor em ambientes inóspitos (tanto naturais como urbanos) e a mulheres que são ou paixões impossíveis ou armadilhas letais – assim como a extensão cinematográfica deste The Killers, tamanha a influência do autor[3]. Aqui, o espectador se vê diante da trajetória dramática e obsessiva do ex-pugilista Ole “The Swede” Andersen (Burt Lancaster, em seu papel de estréia no cinema, consecutivamente à sua experiência circense), impulsionado pela paixão por Kitty Collins (Ava Gardner, em seu primeiro papel de destaque).[4]

A narrativa do filme propriamente dita se dá após o assassinato brutal de Ole Andersen. Este não dá ouvidos aos avisos de Nick Adams (um personagem reincidente nas narrativas hemingwaynianas) e paga o preço por isso. Os trâmites do processo levam o investigador de seguros Jim Reardon (Edmond O'Brien) a uma busca pela verdade por trás dos acontecimentos, o que trará à tona todo um passado obscuro – através de inúmeros flashbacks – que envolve ganância, mentiras, violência, vingança, obsessão e uma paixão avassaladora.

Trata-se claramente de um film noir e é o auge da carreira de Siodmak – judeu alemão nascido em Dresden em oito de agosto de 1900 e que fugiu de sua terra natal após a ascensão nazista. Os trabalhos anteriores do diretor – como The Strange Case of Uncle Harry (1945) – aparentemente apenas o aqueceram para este The Killers. De fato, este filme avança seguro e bem delineado por seu roteiro oriundo do conto de Hemingway – o que rendeu a Siodmak uma indicação ao Oscar em 1947.

O grande trunfo, porém, está na maneira como a transposição da literatura para o cinema se deu. Se, por um lado, o breve conto foi seguido à risca tal como script durante seus dez minutos, por outro, a extensão até o desfecho do filme parece tomar fôlego próprio, com a inserção de novos elementos dinamizadores, mesmo que não supere a magnética influência da atmosfera inóspita criada por Hemingway, cujo nome no título original do filme lhe confere um ar de big hit.

Ernest Hemingway’s The Killers, EUA, 1946. Estrelando: Burt Lancaster, Ava Gardner, Edmond O'Brien, Albert Dekker, Sam Levene. Dirigido por: Robert Siodmak. No Brasil: Os Assassinos.

[1] HEMINGWAY, Ernest. The Killers. In: The Complete Short Stories of Ernest Hemingway – The Finca Vigía Edition. Nova York, Simon & Schuster, 1998, p. 215.

[2] Eis aqui uma boa oportunidade para o leitor seguir, por experiência própria, o argumento deste crítico. O conto de Hemingway se estende da página 215 a 222 da obra bibliográfica citada na nota anterior. Vale à pena lê-lo antes de assistir ao filme e, em seguida, reler esta resenha.

[3] A primeira adaptação de uma novela de Hemingway para o cinema se deu em 1932, com A Farewell to Arms, de Frank Borzage, mas a mais célebre é, definitivamente, For Whom the Bell Tolls, de Sam Wood, com Gary Cooper e Ingrid Bergman, em 1943.

[4] Curiosamente, os dois artistas – Lancaster e Gardner – negaram o sistema de estrelato do qual faziam parte. O ator, de origem irlandesa, declarou: “I woke up one day a star. It was terrifying. Then I worked hard toward becoming a good actor”; a atriz, proeminente por sua beleza, disse: “What I'd really like to say about stardom is that it gave me everything I never wanted”. Ele alcançou seu objetivo de ser tornar um bom ator; ela nunca ultrapassou a barreira do carisma oriundo da beleza – barreira incrivelmente grande para ela, pois era equivalentemente linda.