sábado, janeiro 29, 2005

Diálogos # 2 – Dois mergulhos na obsessão

Apesar da maior parte do mercado cinematográfico brasileiro ser dominado por filmes norte-americanos, nem todos os bons filmes oriundos da safra dos Estados Unidos têm o destaque que merecem aqui, lá ou em qualquer outro país. Pode-se excluir desse conjunto talvez os circuitos e festivais não tão inclinados para o ângulo comercial, como o Sundance Film Festival e Cannes – mas são exceção e sabe-se que não atingem a amplitude de um blockbuster. Os filmes em questão passam despercebidos pelas salas brasileiras, se é que passam por elas. Normalmente têm sua première diretamente em DVD.

Essa é exatamente a queixa do ator e diretor norte-americano Sean Penn. Quando passou por Cannes para o lançamento de seu filme The Pledge, comparou cinema e política. Penn disse que existem bons políticos – a questão é que eles não ganham. Da mesma maneira haveriam bons filmes, mas que não conseguem atingir o sucesso nos Estados Unidos. Ele se ressente de que seus conterrâneos, tão à vontade com o cinema como uma indústria cultural, não valorizam as verdadeiras jóias. Mas como disse, tal comportamento não é exclusivo dos americanos, está enraizado na cultura de massa.
No caso de Sean Penn, ele está sendo bem específico. Trata-se da recepção ao seu último filme atrás das câmeras, The Pledge, o qual, mesmo tendo um elenco de dar inveja a muitas outras películas, teve discreta repercussão. No entanto, Penn não pode ser tão radical. Na época de lançamento, os pontos de ônibus e os próprios ônibus em Paris exibiam pôsteres do filme. Reconhecer a qualidade do filmes, entretanto, é outra história.
Outro exemplo é Narc, de Joe Carnahan, pouquíssimo conhecido do público. Este filme apresenta uma curiosidade: é recordista na quantidade de produtores. Eles somam vinte e um, dentre os quais o ator e protagonista Ray Liotta e a dupla Tom Cruise e Paula Wagner. É um exagero para um filme norte-americano protagonizado por atores de peso como Liotta e Jason Patric, mas seria comum no Brasil.
Ambos são vencedores, pois buscam quebrar essa barreira comercial que dominou o cinema. Os filmes bancados pelos grandes estúdios passaram a perder a originalidade e entraram em um círculo vicioso de repetição das mesmas histórias. Restou ao cinema alternativo injetar criatividade na sétima arte, tanto do ponto de vista artístico como comercial.
Mas The Pledge e Narc possuem muito mais em comum do que a discreta publicidade: ambos são retratos crus de personagens que mergulham fundo na própria obsessão, mesmo sem se dar conta disso. Estabelecem, nesse sentido, um interessante diálogo.
A promessa impossível de se cumprir
Jerry Black é o policial que vive sozinho, está nas vésperas da aposentadoria e adora pescar. Justamente na noite da festa de sua aposentadoria, uma garota é encontrada violentada e assassinada. Jerry insiste em acompanhar seu colega, abandonando a festa. E é Jerry também quem dá a terrível notícia aos pais da menina. Por fim, ele acaba – num momento de empatia pela mãe inconsolada – prometendo que irá encontrar o culpado, “pelo bem de sua alma”, como ela exige.
A partir de então, algo muda em sua vida, sem ele mesmo se dar conta. Não tem idéia da gravidade da promessa que acabara de fazer. Racionalmente, ninguém pode prometer o que Jerry prometeu; só faz sentido prometer tal coisa para consolar a mãe da vítima. Mas a promessa se torna real para Jerry e ele entra em um padrão de auto-destruição do qual aparentemente não há saída. Mesmo querendo fugir, a obsessão pela promessa está lá presente em pequenos detalhes e fatos que o puxam de volta. Seu instinto policial teima em lhe dizer que seu palpite está correto.
Pode-se dizer – mais uma vez – que Jack Nicholson está soberbo; ele domina completamente a cena. Mas Sean Penn ainda dispõe de um elenco de apoio tão espetacular que é difícil de imaginar todos juntos. Por isso, fazem aparições curtas, das quais a de Benicio Del Toro é a melhor, com certeza. E Penn mantém o filme coeso, passando as impressões corretas nos momentos corretos. Trata-se de um filme triste, deve-se dizer. É triste acompanhar o protagonista se perder, deixar as coisas que realmente lhe importa escorrer por entre seus dedos, mas é bastante real. A obsessão o cega de tal maneira que ele não pode se controlar. Seu único momento de relaxamento é durante as pescarias.
The Pledge é uma adaptação da novela de Friedrich Dürrenmatt, a qual, por sua vez, é baseada em uma história que ele escreveu para o filme alemão It Happenned in Broad Daylight, de 1958, que possui um final ligeiramente diferente. Na versão alemã o assassino era interpretado por Gert Fröbe, que se tornaria mundialmente conhecido seis anos depois como Auric Goldfinger no terceiro filme da série James Bond, Goldfinger.
Seguindo a seqüência de inconformidade de Sean Penn, este recusou-se a comparecer à cerimônia do Oscar de 2002, no qual concorria ao prêmio de melhor ator pelo filme I Am Sam (2001), de Jessie Nelson. O motivo de Penn era o pouco valor que a Academia dava à interpretações primorosas como a de Jack Nicholson neste The Pledge.
Penn foi indicado para a Palma de Ouro em Cannes por esse filme, estrelado por sua mulher – Robin Wright Penn –, que esbanja talento no papel de uma garçonete. Não se trata, porém, o que o público em geral vê, e é aí que reside o grande impasse que se criou na divulgação e produção do filme. Por ser algo que nem todo o mundo vê – por ser algo de qualidade, restrito aqueles que buscam qualidade no cinema – torna-se pouco abrangente. Uma jóia escondida para poucos.
Terrivelmente realístico, adoravelmente humano
O diretor Joe Carnahan abre Narc com uma seqüência estonteante. Nada de efeitos especiais ou coisas do gênero, apenas – e acreditem: já é o suficiente – uma perseguição policial. O policial em questão é Nick Tellis (Jason Patric) e o perseguido, um traficante assustado e, portanto, imprevisivelmente violento. A câmera de Carnahan não pára de tremer, acompanhando a caçada humana, dando mais realidade à cena. Estonteante é o adjetivo mais qualificado para essa abertura. Considerando que a abertura é decisiva, pois captura o espectador ou falha em tentar, Narc já surpreende desde seu primeiro minuto.
O enredo de Narc envolve o relacionamento entre dois policiais. Um deles é o já citado Tellis, afastado por erro em ação e investigado pela corregedoria, além de ter tido sérios problemas com drogas. O outro é o viúvo e descontrolado, mas extremamente competente Henry Oak – Ray Liotta, que engordou e colocou próteses debaixo dos olhos para intensificar a expressão cansada e obsecada. Nenhum dos dois têm interesse pelo outro, mas trabalharão juntos, obrigatoriamente. Não se trata da mesma fórmula desgastada, pois aqui ela toma outros contornos muito diversos.
Tellis e Oak investigam a morte de um policial que trabalhava disfarçado nas ruas. O caso tem muito a ver com ambos, mais do que eles próprios desejam. E o espectador sabe que se trata de uma montanha-russa que irá fatalmente descer quando atingir seu ápice. Narc é, assim, a mesma história de sempre, mas contada de uma maneira muito real e, portanto, diferente. Amargo, um tapa na cara do espectador.
Carnahan aborda nesse filme duas questões bastante complexas.
A primeira diz respeito ao envolvimento do policial do departamento de narcóticos que trabalha disfarçado. Até onde ele pode ir sem se deixar envolver? É possível um não envolvimento? O profissionalismo deve prevalecer, mas são seres humanos, de qualquer maneira. A linha que separa os dois mundos é muito tênue para que, no calor da ação, se deixe de cruzá-la. O protagonista – Tellis – é um exemplo disso.
A segunda questão de Carnahan é como viver após um erro? Isto é, depois de acertar um civil inocente, resultando em morte, como o policial irá conviver consigo mesmo e com sua terrível falha? Narc, portanto, é amargo naturalmente, pois seus personagens são extremamente amargurados. Daí reforça-se outra característica do filme: ele é terrivelmente realístico por ser adoravelmente humano.
Mas Tellis e Oak, impreterivelmente, estão mergulhados em um fluido de obsessão. Eles são como duas locomotivas que não enxergam o que há nos trilhos, apenas visam chegar à estação. Estilhaços de vida vão se espalhando pelo caminho, conforme eles chegam perto do assassino e da insuportável verdade.
Desde sua première Narc se auto-define alternativo: 14 de janeiro de 2002 no Sundance Film Festival. No Brasil, não passou pelos cinemas. Ficou lá, escondido, esperando ser encontrado por aqueles que realmente buscam um bom filme. Poderia ter sido produzido como um blockbuster, pois tem características para tanto, mas não teria feito sentido. Um policial psicológico de qualidade bancado por dois atores de peso, esta é a definição de Narc.
O diálogo dos policiais obcecados
O primeiro ponto que distancia Jerry Black da dupla Tellis e Oak é a estabilidade na vida. Black está prestes a se aposentar, ao passo que a dupla – principalmente Tellis, mais novo – tem muito a percorrer. Isso não quer dizer que Black não tenha problemas; a questão é que eles estão muito bem escondidos. Na dupla de Narc eles estão à tona, boiando e causando todos os danos possíveis.
Por outro lado, há um ponto ao qual os três estão conectados: a obsessividade. Seja a insana promessa do personagem de Nicholson, seja a busca pelo culpado dos policiais vividos por Patric e Liotta. Nesta questão, é difícil de discerni-los. Todos eles estão mergulhados tão fundo em suas buscas que o motivo deixa de ser importante. No final, todos estão juntos, incansáveis, explosivos, incessantemente obsecados.
Talvez o único dos três que seja um caso a ser discutido é Tellis. Ele parece carregar um fardo maior do que a obsessão. Trata-se da luta por conviver com seus erros, superar o passado, conseguir voltar à tona para respirar. A obsessão está aí para tragá-lo, complicar sua vida, mas essa vontade de sobreviver parece ser maior. Não deixa, entretanto, de estar tomado pela idéia fixa de resolver o crime, não como um fim por si só, mas como um meio de restabelecer sua vida. A questão a respeito dos limites que o ser humano se impõe é profunda e complexa. Manter o racional com o controle da situação ao invés de reagir instintiva e emocionalmente é uma tarefa árdua. Por se estar sozinho, mergulhado nos próprios pensamentos, não é fácil separar o que é válido e o que deve ser deixado de lado. Tomar um caminho ao invés de outro significa abrir mão de muitas coisas e, ao mesmo tempo, abraçar outras. Fechar-se hermeticamente em uma questão ou objetivo pode ser produtivo do ponto de vista de conseguir resultados, mas será que realmente vale à pena?
The Pledge, EUA, 2001. Estrelando: Jack Nicholson, Robin Wrigth Penn, Benicio Del Toro, Sam Shepard, Vanessa Redgrave, Mickey Rourke. Dirigido por: Sean Penn. No Brasil: A Promessa.
Narc, EUA, 2002. Estrelando: Ray Liotta, Jason Patric. Dirigido por: Joe Carnahan. No Brasil: Narc.