domingo, janeiro 16, 2005

Entre encontros e desencontros: nos quais se debate o que se perde na tradução

Não há nada pior, durante o contato com uma obra de arte concebida em outra língua, do que uma péssima tradução. Para aqueles que não falam a língua estrangeira em questão, a má tradução distorce de tal maneira a interpretação da obra que acaba por se ter uma visão falsa de sua mensagem. O ideal, na verdade, é absorver o conteúdo na língua original, sem passar ou depender de traduções. (Por esse motivo se configura um pecado assistir a filmes dublados – e pelo mesmo motivo não uso senão os títulos originais neste WideScreen.) Nem sempre isso é possível, mas em se tratando da língua inglesa, não há desculpas, visto a amplitude de cópias disponíveis. Mesmo essa, que é considerada uma língua relativamente fácil, sofre de traduções terríveis; o que se dirá sobre outras.

Uma das vítimas mais recentes desse mal é Lost in Translation (2003), de Sofia Coppola, traduzido como Encontros e Desencontros. Não sei se as traduções para o espanhol – Perdido en Tokio – e hebreu – Avudim be-Tokio – que significam “perdido em Tóquio”, são piores do que a para o português. Isto é, os próprios títulos do filme foram, literalmente, perdidos na tradução, ou seja, na transformação de uma língua para outra, algo bastante expressivo e importante foi parar no limbo. Tal expressão – “perdido na tradução” – na verdade, seria a mais sensata tradução do título, porém soaria estranho aos ouvidos do público. “Encontros e desencontros” não é alheio ao longa, mas só engloba uma pequena porcentagem de tudo que ele quer transmitir. Enfim, trata-se de uma tarefa árdua e complexa essa do tradutor.

A tradução abordada por Coppola, na verdade, é a transição do Ocidente para o Oriente, especificamente dos Estados Unidos para o Japão. O espectador toma já um primeiro contato com o contraste cultural na abertura do filme, que exibe a capital japonesa à noite, quando o ator norte-americano Bob Harris (Bill Murray) chega à cidade para gravar um comercial para a marca de whisky Suntory – inspirado no fato de que o pai de Sofia, Francis Ford Coppola, gravou um comercial para a mesma marca junto com Akira Kurosawa na década de 1970.

No mesmo hotel (o Park Hyatt Tokyo) está hospedada a jovem Charlotte (Scarlett Johansson), que faz companhia para seu workaholic marido John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo conceituado. Ela sente o impacto cultural de maneira muito dramática, sentindo uma enorme solidão durante o tempo que John está trabalhando e mesmo quando ele está com ela. Charlotte não consegue dormir, não se acostuma com a radical diferença de fuso-horário. Ao mesmo tempo, Bob também sofre com a insônia e sente-se frustrado por deslocar-se de uma distância tão grande apenas pelo cachê, ao passo que poderia estar fazendo algo que realmente lhe desse prazer. Seu casamento vai mal e ele passa por uma crise de meia-idade.

O destino fará com que estes dois estranhos em um mundo estranho se encontrem no bar do hotel e estabeleçam uma instantânea simpática relação de cumplicidade. Charlotte e Bob passam a apoiar-se um ao outro para encarar de frente suas questões interiores, intensificadas pelo desconforto causado pelo choque cultural. O relacionamento que desenvolvem não é predominantemente sexual; nem por isso pode-se dizer que seja integralmente amizade e vice-versa. Portanto, a melhor interpretação acaba por ser a cumplicidade e tudo que esta palavra engloba.

Lost in Translation é um filme extremamente sutil e sensível e foge muito do estereótipo do cinema norte-americano. Trata-se de um drama poderoso, diluído por um toque de comédia muito bem orquestrado. Sua grandeza repousa nos detalhes. Um olhar, um abraço, um quase sorriso perdidos pode deixar lacunas para o bom entendimento do filme. O espectador deve deixar-se levar por completo, ser tragado sem retorno para o mundo criado por Sofia. Na prática, permitir-se sentir o filme, o que é uma exigência para se assistir a qualquer filme, mas que aqui assume proporções vultosas. Caso contrário, o próprio espectador se perderá na tradução do que a diretora quis expressar.

Sem exageros, Lost in Translation foi o melhor filme exibido nos cinemas no ano de 2004. A sutilidade com que Sofia consegue alçar este filme não é trabalho para qualquer cineasta, requer um exímio domínio da arte e um fixo objetivo a ser alcançado. De fato, desde a concepção do roteiro até a pós-produção essas características foram perseguidas. A diretora – cuja carreira cinematográfica se iniciou muito cedo, ainda bebê, na cena clímax em The Godfather (1972) – diz ter concebido a idéia para o filme pensando em Bill Murray para o papel de Bob Harris e confessa que não realizaria o mesmo caso o ator não se juntasse ao projeto. Durante as filmagens, tirou uma série de fotos de Tóquio e depois usou-as como referência para as cenas. Diante do conselho do pai para gravar em vídeo de alta definição, argumentou que utilizaria filme por ser mais romântico. Ou seja, Sofia sabia exatamente a atmosfera que desejava atingir.

Quanto a Bill Murray, teria cometido um grande erro em não aceitar o papel. Trata-se de sua melhor performance até hoje e a perda do Oscar de melhor ator para Sean Penn em Mystic River (2003), de Clint Eastwood, é discutível. Famoso por seu trabalho na série cômica Saturday Night Live e por interpretar o Doutor Peter Venkman em Ghostbusters (1984), de Ivan Reitman, havia presenteado o público com o excelente Groundhog Day (1993), de Harold Ramis. Murray consegue transmitir o exato balanço entre o dramático e o cômico exigidos para o papel de Bob Harris, permeado por uma ironia capaz de fazê-lo lidar com os problemas da vida.

Entrementes, este filmes acabou por consolidar e efetivamente divulgar o incrível talento de Scarlett Johansson, uma grande promessa para o cinema. Ela possui aquela beleza discreta, superada por um delicado carisma que dá o tom certo para a fragilidade da personagem. Características que não são difíceis de se encontrar, porém são complicadas para se combinar. Facilmente se cai em uma interpretação insonsa e débil, que leva toda a genialidade do roteiro por água abaixo.

Murray e Johansson estabelecem uma relação baseada na cumplicidade
Finalmente, Sofia obteve respaldo também na trilha sonora – que consiste em um espetáculo a parte. A cena chave do filme se passa em um karaokê, quando o personagem de Murray canta More Than This, de Bryan Ferry, para a personagem de Johansson (“More than this/You know there is nothing/More than this”), logo depois desta cantar Brass in Pocket, de Chrissie Hynde e James Honeyman-Scott para ele. Ela fala por si mesma. (No Maquinário, Maurício de Almeida apresenta sua resenha desta excelente soundtrack.)
Assim, Lost in Translation foi indicado ao Oscar merecidamente por suas qualidades, e não por seus dotes comerciais, como é freqüente. As indicações foram para Best Actor in a Leading Role (Bill Murray), Best Director, Best Picture e Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen, tendo ganho apenas este último.
Sofia, inclusive, inaugura um novo campo: por incrível que pareça, foi a primeira norte-americana a ser indicada para o Oscar de melhor direção. As outras duas antecessoras foram a neozelandesa Jane Campion, por The Piano (1993) e a italiana Lina Wertmüller, por Pasqualino Settebellezze (1976). Além disso, foi a primeira mulher na história a ser indicada, ao mesmo tempo, nas categorias melhor direção e melhor filme. Finalmente, juntou-se – com seu Oscar de melhor roteiro adaptado – à sua família, os Coppola, os quais são a segunda família a ter vencedores do prêmio da Academia norte-americana em três gerações: o avô, Carmine Coppola; o pai, Francis Ford Coppola e o primo, Nicolas Cage. (A primeira família a atingir tal marca foram os Huston: Walter, John e Angelica.)
Lost in Translation, EUA, 2003. Estrelando: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi. Dirigido por: Sofia Coppola. No Brasil: Encontros e Desencontros.