domingo, janeiro 02, 2005

Remakes #1 – O retorno do espetáculo inteligente

O cinema norte-americano (leia-se Hollywood) tem, quase que por santificada tradição, o costume de lançar remakes. Não sei se é só falta de bons roteiros ou apenas uma homenagem saudosista; talvez uma mistura desequilibrada de ambos. Sei, sim, que é para abocanhar fartas bilheterias, aproveitando-se da celebridade do original – assim, o remake se torna atraente para aqueles que assistiram ao original em sua época e também para aqueles que só o conhecem pelo nome já disseminado.

Entretanto, o público costuma reagir ao filme mais recente da seguinte maneira. Os espectadores que pertencem ao primeiro grupo citado, isto é, ao grupo composto por aqueles que tomaram contato com o filme na época de seu lançamento, costumam preferir o original ao remake; já as gerações mais novas preferem este. Esse tipo de reação renderia um estudo sociológico e antropológico profundo, mas provavelmente está relacionado à nostalgia, por um lado, e à rejeição ao que é distante temporalmente, por outro. Tanto uma reação como a outra estão estruturadas sobre uma visão míope e dogmática. As análises ponderas, sóbrias e críticas entre o original e o remake, porém, estatisticamente, concluem que usualmente os originais são melhores.
Tal reflexão remete a um comentário do célebre cineasta John Huston, que declarou certa vez: “Existe uma intencional persistência em refilmar antigos sucessos de tempos em tempos. Não se pode fazer [os remakes] tão bons como são em nossas memórias, mas se insiste e toda vez é um desastre. Por que não refilmamos alguns de nossos filmes ruins e transformamo-os em bons filmes?”[1] A resposta é simples: porque o cinema é uma indústria e não há investidores dispostos a apostar capital em um projeto arriscado, o qual, além de tudo, já falhou uma vez. Assim, os remakes de grandes sucessos apontam para um certo retorno garantido – mesmo que sejam qualitativamente ruins perto dos originais.
Portanto, pensando em termos artísticos, há pouquíssimos casos nos quais se justifica a realização de um remake; Ocean’s Eleven é um deles.
A matriz original compreendia um simples pretexto para exibir o Rat Pack – o grupo de atores liderado por Frank Sinatra, tendo como companheiros Dean Martin, Peter Lawford, Sammy Davis, Jr., e Joey Bishop. O enredo dizia respeito a onze conhecidos que lutaram juntos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e que planejam assaltar, simultaneamente, durante a passagem de Ano Novo, cinco cassinos de Las Vegas. O desenvolvimento da narrativa se faz, em um primeiro plano, a partir da liderança de Danny Ocean (Sinatra) – o mentor do plano – em recrutar cada um dos companheiros, onze no total, fato que dá título ao filme, ou seja, algo como “os onze de Ocean”. A narrativa prossegue com a execução do plano e se encerra com seu desfecho politicamente correto coerente com a época.
Este roteiro, enfim, é um bom ponto de partida, mas peca sem maneira de ser perdoado durante seu desenvolvimento e, principalmente, ao ser transposto para a tela grande. Seus pecados são dois, expostos a seguir.
Primeiro, não há espaço nos diálogos para uma boa interpretação. O Rat Pack surge na tela verdadeira e simplesmente como o Rat Pack; a única diferença é que está inserido em um contexto criminoso. Mas este é peculiarmente caracterizado por uma atmosfera de glamour e de sofisticação própria; é como se realmente o Rat Pack – e os outros escolhidos de Danny Ocean – fossem realizar o assalto. O espectador não se convence de que quem está no filme é Ocean e não Sinatra, ou Harmon e não Martin.[2] Este, inclusive, exibe dois números musicais, cantando Ain’t That a Kick in the Head que, junto com a performance de Sammy Davis, Jr., com Ee-o-leven, consiste na melhor parte deste longa-metragem.
Segundo, o desenrolar do filme é extremamente monótono, característica proveniente do fato do roteiro ser muito ingênuo – principalmente a realização do assalto, efetuado tal qual roubar doce de criança.
A interação entre os atores, todavia, era muito natural, pois se conheciam e conviviam de longa data. Dessa forma, muitos dos diálogos foram improvisados, mas não ajudaram substancialmente para a melhoria do filme. Nem os imprevistos e as desventuras que surgem e que tentam dar ânimo ao roteiro funcionam; nem mesmo a direção do cineasta nascido na Rússia, Lewis Milestone – vencedor do Oscar pela adaptação de 1930 de All Quiet on the Western Front, livro de Erich Maria Remarque – pode se excluir de parcela da culpa.
Trata-se, assim, de um filme carente de vigor e que envelheceu muito rápido. Tão rápido que ele definha em direção à cova durante sua própria reprodução. Não é de se impressionar se não for visto até o fim, o que não deixa de ser uma pena, pois o desfecho é o mais interessante de tudo – ou, nem isso: apenas um leve morro sobre uma vasta depressão.

O Rat Pack fotogrado em frente ao cassino Sands, em Las Vegas –
da esquerda para a direita:
Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis, Jr., Peter Lawford e Joey Bishop
É compreensível, então, a decepção que George Clooney sentiu ao assistir pela primeira vez a esse filme em seu trailer, durante o intervalo de filmagem da série que o levou ao estrelato, E.R., em 1994. Ele diz que no mesmo momento teve vontade de produzir um novo Ocean’s Eleven, alterando de modo profundo o roteiro, mas outros compromissos impediram instantaneamente tal idéia. Anos depois, um novo roteiro chegou às portas da Section Eight – a produtora que ele possui em sociedade com o amigo e cineasta Steven Soderbergh.
A idéia original, assim como os personagens, era de autoria de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell; o roteiro, porém, é responsabilidade de Harry Brown, Charles Lederer e de um não-creditado Billy Wilder.[3] O roteiro levado à Clooney, porém, foi drasticamente alterado por Ted Griffin. Na verdade, apenas dois elementos permaneceram: o nome do protagonista, Danny Ocean (interpretado agora pelo próprio Clooney), e a intenção de realizar um assalto múltiplo e simultâneo em cassinos de Las Vegas contando com a ajuda de onze especialistas; o resto foi, felizmente, descartado.
O peso do roteiro para um filme pode ser facilmente medido se assistindo a esses dois longas. Steven Soderbergh logo notou essa medida quando Clooney lhe entregou o roteiro de Griffin. Mesmo cansado após dois projetos extenuantes como Erin Brockovich e Traffic, Soderbergh sabia que se naquele instante perdesse a oportunidade de realizá-lo, alguém logo o faria.
Mas um obstáculo de considerável tamanho se colocava diante da Section Eight: o elenco escolhido iria lançar o custo do filme à estratosfera. Eis aqui, porém, o indício de que o ramake de Ocean’s Eleven se tranformava em algo maior do que realmente previsto; tal indício repousa sobre a solução encontrada para trazer o elenco estrelar. De fato, são tantos artistas consagrados dentro de um orçamento razoável que a única maneira de juntá-los todos é não pagando os salários a que estão geralmente acostumados – fecharam o contrato aceitando apenas os lucros de bilheterias. Na verdade, o projeto era tão atraente que se transformou não em trabalho, mas em diversão. O espírito não só do filme, mas do projeto, está explícito em uma das taglines: “Eles estão tendo tanta diversão que chega a ser ilegal”.[4] É como se um grupo de amigos se reunisse para realizar um filme.
Tal aspecto acaba sendo evidente nas telas, para enriquecimento da narrativa e deleite do espectador. Os diálogos entre Clooney e Pitt, particularmente, aparentam tanto entrosamento que resultam em uma naturalidade intrínseca. O resultado final acaba sendo um resgate do cinema como espetáculo, para divertir a platéia – mas o espetáculo inteligente, estruturado sobre qualidade real, com artistas talentosos em plena forma atuando, visivelmente, por prazer. Nada de atuações merecedoras de prêmios, apenas o cinema espetáculo por si mesmo, o que já é muita coisa.
O Ocean’s Eleven de Soderbergh é, portanto, um grandioso espetáculo auxiliado por uma trilha sonora eclética e de bom gosto – que inclui Papa Loves Mambo, a versão remixada de A Little Less Conversation e Clair de Lune (extraída de Suite Bergamasque) – como há muito não se via no cinema. (O único pecado do álbum soundtrack é não ter incluído a belíssima Misty, de Erroll Garner.)
Mas o Ocean’s Eleven de Soderbergh é, também, um dos poucos sucessos esmagadores da produtora Section Eight. Na verdade, a intenção do cineasta e de Clooney é poder desenvolver projetos mais autorais, como Solaris – outro remake, porém do homônimo russo de Andrei Tarkovsky, de 1972, adaptação da história de Stanislaw Lem. Esta ficção científica, porém, não mostrou o mesmo fôlego que a refilmagem da aventura de Danny Ocean. Essa filosofia, assim, revela um percurso distinto dos grandes estúdios, cujo espírito empresarial visa unicamente o lucro, para o empobrecimento do cinema como arte.
O estrondoso sucesso nas bilheterias de Ocean’s Eleven dá força financeira e artística para o lançamento de novos filmes com qualidade. Dessa forma, portanto, se dá o desenvolvimento de um projeto que aproveita de forma inteligente a refilmagem – um processo cada vez mais comum, devido à extensão temporal do cinema. Aplausos então para Soderbergh, Clooney e companhia.
Ocean’s Eleven, EUA, 1960. Estrelando: Frank Sinatra, Dean Martin, Peter Lawford, Sammy Davis, Jr., Joey Bishop, Cesar Romero, Akim Tamiroff, George Raft. Dirigido por: Lewis Milestone. No Brasil: Onze Homens e Um Segredo.
Ocean’s Eleven, EUA, 2001. Estrelando: George Clooney, Brad Pitt, Andy Garcia, Julia Roberts, Matt Damon, Bernie Mac, Carl Reiner, Don Cheadle, Elliott Gould. Dirigido por: Steven Soderbergh. No Brasil: Onze Homens e Um Segredo.
[1] A referência original compreende: “There is a wilful lemming-like persistance in remaking past successes time after time. They can’t make them as good as they are in our memories, but they go on doing them and each time it’s a disaster. Why don’t we remake some of our bad pictures – I’d love another shot at Roots of Heaven – and make them good?” A referência a The Roots of Heaven é, na verdade, reflexiva. Esse filme foi dirigido por Huston em 1958, tinha no elenco Errol Flynn, Juliette Gréco, Trevor Howard e Orson Welles e narra a luta de um idealista – interpretado por Howard – para preservar o elefante africano da extinção.
[2] Talvez tal efeito se deva ao fato de que muitos membros do elenco apresentavam, simultaneamente às filmagens, shows em Las Vegas. A rotina consistia em acordar à tarde, fazer um ou dois shows à noite, e em seguida se dirigir às locações. Como o roteiro não dava margem para se fugir da atmosfera de glamour, tal caráter era, pelo contrário, acentuado.
[3] Qual a contribuição de um cineasta do calibre de Billy Wilder na concepção de um roteiro desses? Não que um grande artista e profissional seja incapaz de cometer erros – uma possibilidade plausível que se mostrou verdadeira várias vezes.
[4] “They’re having so much fun it’s illegal”.