domingo, fevereiro 06, 2005

Um filme de Steven Spielberg

Nestes tempos de incidentes internacionais oriundos, em grande parte, pelo fatídico 11 de setembro de 2001, viajar para fora da terra natal se tornou uma aventura – especialmente se o país de destino não é hospitaleiro. O eterno tabu a respeito dos estrangeiros parece ter tomado um formato vultoso, onde as exigências burocráticas de controle da imigração passaram a se enrijecer. Em alguns casos com a devida razão; em outros – como a represália brasileira aos cidadãos norte-americanos, seguindo a regra do olho por olho, dente por dente – sem o mínimo de discernimento.
É nesse sentido que flutua o mais recente filme de Steven Spielberg: The Terminal (2004). A situação toda se concentra sobre Viktor Navorski (Tom Hanks), que acaba de chegar ao aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, vindo de seu fictício país natal, Krakozhia. O problema é que, durante o vôo, ocorreu um golpe de Estado em Krakozhia, e os Estados Unidos não reconhecem o novo governo, o que invalida o passaporte de Navorski como documento. Impossibilitado de deixar as dependências do aeroporto e pisar em solo americano, ele é obrigado a permanecer no terminal de passageiros, indefinidamente.
A história toda, na verdade, é baseada em um episódio ocorrido em 1988 com o refugiado iraniano Merhan Nasseri. Ele aterrissou no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, depois de ter sua entrada negada na Inglaterra, pois seu passaporte e seu certificado de refugiado das Nações Unidas haviam sido roubados. As autoridades francesas não permitiram sua saída do aeroporto, onde teve que permanecer, como um refugiado sem pátria e sem nenhum lugar para ir. Este fato também inspirou outro filme, o francês Tombés du Ciel (1993), de Philippe Lioret. Na prática, porém, The Terminal não é um remake.
Tratando-se de uma obra de Spielberg, pode-se imaginar quais caminhos serão trilhados pelo filme. De fato, este The Terminal não escapa à linha narrativa característica do cineasta. Como praticamente toda filmografia spielbergueriana, este exemplar é todo permeado por uma visão infantil cujo perfil se estrutura sobre o maniqueísmo e cuja conclusão, sobre a moral da história. Há um deslumbre extremamente otimista acentuado por um quadro estático de estereótipos – o vilão malvado (Stanley Tucci) que é vencido pela sinceridade e integridade do herói; os amigos que o herói faz durante sua jornada (Diego Luna, Kumar Pallana, Zoe Saldana), inicialmente ariscos a ele e depois seus fiéis seguidores; e a mocinha que está presa em um relacionamento nocivo (Catherine Zeta-Jones). Tal quadro acaba por resultar em um pobre desenvolvimento das personagens e ajuda a intensificar a atmosfera idealisticamente infantil. The Terminal passa longe da possibilidade de ser encarado como um filme ruim, mas poderia, com uma história como esta, gerar algo muito mais profundo; acaba por ser uma mal elaborada recriação de uma história interessante, um sub-aproveitamento de algo potencialmente maior e também uma releitura de outro filme de Spielberg.
O diretor acabou por retirar do roteiro original uma cena extremamente simbólica na qual Navorski, em uma tentativa de querer se comunicar com seus familiares, busca um telefone e diz, em seu péssimo inglês: “Home phone, home phone!”. Isso remete ao começo dos anos 1980 (particularmente 1982), quando do lançamento de um de seus filmes mais famosos: E.T. the Extra-Terrestrial. É exatamente isso que Spielberg queria evitar quando cortou tais linhas, mas a lembrança é inevitável, não está implícita em uma simples fala, mas explícita e patente no filme todo. A fábula do estrangeiro (seja ele de Krakozhia ou de outro planeta) que busca retornar ao seu lar e, em tal empreitada, tece uma rede de relações que irá mudar a todos em torno e, inclusive, a sua visão de mundo, é comum aos dois filmes. Mas The Terminal tem uma desvantagem: busca ser adulto, porém é calcado sobre alicerces infantis, ao passo que E.T. é proclamadamente um filme para crianças – mesmo que essa criança seja a face que não cresceu no inconsciente do adulto.
Resulta daí, portanto, uma vã tentativa de mascarar a real identidade do filme. Steven Spielberg é o cineasta que não cresceu; não é à toa que é dele aquela terrível versão cinematográfica da história de Peter Pan, Hook (1991), que desperdiça da pior maneira o talento de Dustin Hoffman e Robin Williams. Até mesmo seus filmes ditos “adultos” – como Schindler’s List (1993) e Saving Private Ryan (1998) – possuem um tom de idealização infantil. A exceção se dá quando ele deixa de lado por completo essa tentativa de alçar vôos mais longos e se torna explícito. Isso só ocorreu três vezes em sua carreira: quando decidiu prestar homenagem aos antigos filmes de aventura com a aclamada trilogia Indiana Jones. Isto é, deixou claro que nada mais queria senão levar o espectador através da aventura de sua vida. Não é à toa que esta é o tagline de Indiana Jones and the Last Crusade (1989) (“Have the adventure of your life keeping up with the Joneses”).
Todavia, o lado positivo presente em The Terminal reside no fato de que a queda para o melodramático é freada, inesperadamente. É como a viagem em um ônibus descontrolado à beira de um precipício: espera-se que ele caia cedo ou tarde. Mas o filme acaba por surpreender neste sentido, dando ênfase a um tom cômico mais forte. Spielberg conta, para isso, com o talento de Hanks, responsável pelo carisma e simpatia de Navorski, que sustentam todo o filme. Tecnicamente, fez-se questão da construção em tamanho real do terminal de passageiros para que a câmera pudesse se afastar progressivamente, evidenciando uma visão panorâmica da solidão do personagem – o qual obterá uma maior identificação com aqueles espectadores que já viajaram de avião a um país estrangeiro nestes tempos de incidentes internacionais.
The Terminal, EUA, 2004. Estrelando: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones. Dirigido por: Steven Spielberg. No Brasil: O Terminal.